quinta-feira, 1 de maio de 2014

Entrevistamos: Cintia Alves da Silva (14/04/2014)

Doutoranda e mestra em Linguística e Língua Portuguesa pela Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), campus de Araraquara (SP), Cíntia Alves da Silva é autora de uma importante dissertação que une ciência e religião: As cartas de Chico Xavier: uma análise semiótica.

Seu objeto de estudo – as cartas psicografadas pelo médium mineiro – envolve uma análise criteriosa do processo de construção dos autores espirituais, com base na coerência dos fatos relatados. Atualmente, dedica-se à tese de doutorado intitulada A prática da psicografia: enunciação e memória em relatos de experiência mediúnica, um estudo mais amplo da psicografia como prática semiótica.

Agradecemos pela entrevista, cedida prontamente e pela amizade que se iniciou com a publicação de um outro post sobre sua obra, post que foi utilizado em seu trabalho, junto com outras matérias em que o estudo foi citado.Desejamos sucesso nas novas empreitadas e na divulgação!

Entrevista com Cintia Alves da Silva

Como se deu a escolha do tema para sua dissertação de mestrado, Cintia?

   Escolhi o tema da minha dissertação de mestrado a partir de uma série de eventos que despertaram o meu interesse para a escrita psicográfica de Chico Xavier. Citarei dois dos que considero mais decisivos. Em outubro de 2008, tive a oportunidade de assistir um documentário sobre a vida do médium mineiro, intitulado Chico Xavier Inédito: de Pedro Leopoldo a Uberaba, que continha o depoimento da Dra. Marlene Nobre sobre uma pesquisa estatística realizada pela equipe da AME-SP, sob coordenação de seu irmão, Paulo Rossi Severino, a respeito do grau de precisão das informações presentes em cartas psicografadas pelo médium entre as décadas de 1970 e 1980. Nesse documentário, Dra. Marlene mostrava os resultados do estudo – posteriormente transformado no livro A vida triunfa, nos anos 1990 –, que comparava dados presentes nas comunicações psicografadas com aqueles citados em questionários preenchidos pelas famílias dos mortos, e punha o material à disposição de quem quisesse investigar o assunto. A questão já havia me chamado a atenção meses antes, em maio, quando tomei contato com uma notícia da Folha de São Paulo, acerca da recém-criada Associação Jurídico-Espírita de SP – AJE-SP, a qual propunha uma “espiritualização” do judiciário e defendia, entre outras práticas, o uso de cartas psicografadas nos tribunais. A reportagem comentava, ainda, a existência de quatro casos em que cartas psicografadas foram utilizadas como meios de prova nos tribunais, mas não citava que se tratavam das cartas do médium Chico Xavier e que os casos eram únicos no mundo. O meu espanto com essa informação foi tamanho que cheguei a guardar o recorte de jornal com a notícia. Desde então, comecei a buscar e organizar informações sobre os casos que envolviam a escrita mediúnica de Chico Xavier. Mas não voltei a pensar seriamente sobre o assunto senão no final desse mesmo ano, depois de ter recebido o que considero um “convite” incomum – já que foi feito trinta anos antes! –, através do depoimento da Dra. Marlene. Pesquisar sobre as cartas de Chico Xavier se tornou, assim, um hobby para mim. Queria saber como a ciência poderia explicar aquele fenômeno. Tantas perguntas – de natureza linguística, especialmente – surgiam diante daquele material, reunido em cerca de uma centena de livros, que não foi preciso muito tempo para que tomassem a forma de um projeto acadêmico. Bastaram dois meses para que eu elaborasse a sua primeira versão, que foi aperfeiçoada ao longo de 2009, quando submeti o projeto ao Programa de Pós-Graduação em Linguística e Língua Portuguesa da Unesp de Araraquara. Desse modo, oficialmente, a minha pesquisa teve início em 2010, tendo sido concluída em 2012, sob orientação do Prof. Dr. Jean Cristtus Portela.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

A ciência lê Chico Xavier: Linguista aponta coerência nas características de cartas psicografadas pelo médium

Uma investigação da área de linguística analisou as cartas psicografadas pelo médium brasileiro Francisco de Paula Cândido Xavier, o Chico Xavier (1910-2002). O estudo apontou marcas que diferenciam os supostos autores entre si e essas distinções mantêm coerência para um mesmo autor em cartas escritas em épocas diferentes. A pesquisa identifica ainda a doutrina espírita permeando esses escritos, além de mostrar peculiaridades do processo de transformação desse material em livro.

A autora é Cíntia Alves da Silva, que fez o projeto durante seu mestrado na Unesp em Araraquara. Ela teve orientação de Jean Cristtus Portela, professor da Unesp em Bauru. Sua dissertação se transformou em livro eletrônico na edição 2013 da Coleção Propg-FEU Digital, sob o selo Cultura Acadêmica da Editora Unesp. A obra, intitulada As cartas de Chico Xavier - uma análise semiótica, pode ser baixada gratuitamente em http://migre.me/ekc6p.

Para realizar a análise, Cíntia teve que criar um acervo de cartas psicografadas porque muitos desses textos foram publicados apenas uma vez e com baixa tiragem. Após coletar mais de 500 textos, a pesquisadora se limitou às "cartas de conforto" aos parentes do suposto autor falecido.

Entre os autores mais recorrentes, a linguista se ateve a três nomes: Augusto César Netto, Jair Presente e Laurinho Basile. Os três teriam vivido em meados dos anos 1970, e morrido jovens. Cíntia escolheu três cartas de cada autor, escritas em períodos que variam de 8 meses a 4 anos.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

LIVRO "As cartas de Chico Xavier: Uma análise semiótica" ( Cintia Alves da Silva )


Sinopse
O objetivo central deste livro foi tentar compreender, com auxílio de métodos semióticos, o processo de construção das autorias espirituais nas cartas "familiares" ou "consoladoras" escritas - ou psicografadas - pelo médium Chico Xavier. A autora procura detectar sinais de coerência nessas autorias ao longo do tempo, e em que medida elas apresentam marcas de autonomia ou individualidade que permitam distingui-las umas das outras.

O córpus analisado é composto de dez cartas psicografadas publicadas entre 1973 e 1980 e atribuídas a três autores: Augusto César Netto, Jair Presente e Laurinho Basile. Como pano de fundo, a autora põe em xeque uma ideia bastante comum entre os espíritas adeptos de Xavier, a de que a escrita do médium seria tão fiel ao estilo dos espíritos por ele psicografados que se poderia até reconhecer as expressões e formatos verbais que eles supostamente utilizavam em vida.

O trabalho também buscou caracterizar as cartas psicográficas como um tipo particular de texto, que se diferencia dos textos epistolares tradicionais. Para a autora, além de se configurarem como gênero editorial específico, as cartas psicografadas são escritas de modo tão peculiar que ultrapassam o contexto do Espiritismo, avançando por vezes para os terrenos da literatura e do memorialismo.

Título: As cartas de Chico Xavier: Uma análise semiótica
Autora: SILVA, Cintia Alves da
ISBN: 9788579833656
Assunto: Linguística
Formato: 14 x 21
Páginas: 212
Edição: 1ª
Ano: 2012

Faça o DOWNLOAD GRATUITO do livro no site da editora Cultura Acadêmica:
http://www.culturaacademica.com.br/catalogo-detalhe.asp?ctl_id=299


terça-feira, 9 de abril de 2013

Entrevista com Cintia Alves da Silva - Podcast do Programa Perfil, Rádio Unesp


Entrevista com Cintia Alves da Silva, autora do livro As cartas de Chico Xavier: uma análise semiótica, obra que integra a  coleção da Propg Digital da Editora Unesp com o selo Cultura Acadêmica

Ouça e/ou faça o download da entrevista clicando na imagem abaixo:


sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Chico Xavier e Semiótica: Dissertação de mestrado estuda cartas psicografadas com embasamento científico

Doutoranda e mestra em Linguística e Língua Portuguesa pela Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), campus de Araraquara (SP), Cíntia Alves da Silva é autora de uma importante dissertação que une ciência e religião: As cartas de Chico Xavier: uma análise semiótica. Seu objeto de estudo – as cartas psicografadas pelo médium mineiro – envolve uma análise criteriosa do processo de construção dos autores espirituais, com base na coerência dos fatos relatados. Atualmente, dedica-se à tese de doutorado intitulada A prática da psicografia: enunciação e memória em relatos de experiência mediúnica, um estudo mais amplo da psicografia como prática semiótica.

RIE – Como você se aproximou do Espiritismo e de que forma surgiu o interesse de defender uma dissertação de mestrado relacionada à religião?
Cíntia Alves da Silva – O meu primeiro contato com o Espiritismo se deu quando eu ainda era adolescente, aos 14 anos. Após receber de presente um volume de O Evangelho Segundo o Espiritismo, passei a me interessar pela doutrina e nunca mais parei de ler a respeito. Vinculei-me à Casa do Caminho, Instituição Espírita Cristã, de São Carlos (SP), no ano de 2008, quando cursei o COEM (Curso de Orientação e Educação Mediúnica). Desde então, a psicografia tornou-se o meu tema predileto. Nesse mesmo ano tive contato com um recorte de jornal que falava sobre a existência da AJE-SP (Associação Jurídico-Espírita do Estado de São Paulo), que à época discutia a possibilidade de se utilizar cartas psicografadas como meio de prova nos tribunais. Foi a partir desse recorte que comecei a buscar e organizar informações sobre os casos que envolviam a escrita mediúnica de Chico Xavier. O que era um hobby, inicialmente, tornou-se tema da minha pesquisa entre 2009 e 2010, quando ingressei no mestrado em Linguística e Língua Portuguesa na UNESP de Araraquara, sob a orientação do Prof. Dr. Jean Cristtus Portela. A importância sociocultural e editorial da psicografia no Brasil foi, sem dúvida, o principal motivo que me levou a considerar o estudo acadêmico desse tema.

RIE – Explique brevemente o objetivo da dissertação e a relação entre psicografia e semiótica.
Cíntia – A dissertação intitula-se As cartas de Chico Xavier: uma análise semiótica e seu objetivo principal foi o de compreender o processo de construção das autorias espirituais (ou “imagens” de enunciador) nas cartas “familiares” ou “consoladoras” escritas pelo médium. Os objetivos específicos incluíram observar se havia coerência na construção das autorias espirituais na obra psicográfica epistolar de Chico Xavier, ao longo de períodos maiores ou menores, e em que medida elas apresentariam marcas de autonomia ou individualidade que nos permitissem distingui-las umas das outras. Essas questões foram elaboradas de forma que pudéssemos refletir sobre uma ideia bastante comum entre os adeptos do Espiritismo – a de que a escrita do médium era tão fiel ao estilo dos espíritos que se comunicavam através dele, que seria possível identificar e distinguir claramente os seus autores espirituais por meio das expressões e formas de dizer que estes supostamente teriam utilizado quando vivos. A pesquisa também buscou caracterizar as cartas psicográficas como um tipo particular de texto, que se diferencia dos textos epistolares “típicos”. Além de se configurar como um gênero específico, as cartas psicografadas delineiam um percurso editorial bastante peculiar, que possibilita que elas sejam lidas e compreendidas em outros contextos, para além do centro espírita, onde é produzida. A Semiótica, concebida enquanto teoria da significação, propõe-se a explicitar conceitualmente os processos de apreensão e produção de sentido. Por essa razão, a sua escolha como perspectiva teórica nos pareceu bastante apropriada, uma vez que as nossas questões acerca da psicografia epistolar inseriam-se justamente na busca pela compreensão dos processos de construção das “identidades” espirituais a que Chico Xavier atribuía a sua escrita.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

A primeira carta de Augusto César Netto (03/02/1973)


Minha mãe, minha querida mamãe!
Primeiro, um pensamento de gratidão a Deus pelas bênçãos recebidas sempre.
Aqui não é muito diferente daí, embora seja diferente daqui. Explicar como é isso não sei ainda. Falo assim para dizer que tenho estado nas disciplinas necessárias. Tratamento intensivo a princípio, refazimento, escola e trabalho depois.
Que eu tenha desejado escrever com uma ansiedade igual à sua, não duvide. Mas não é fácil. Creia, porém, que lá no reduto abençoado de serviço da nossa Acácia, tenho estado presente sempre e sempre. Estou agindo. Seu filho já consegue fazer alguma cousa. Não é muito não, como não pode deixar de ser. Sou ainda um estudante nas primeiras faixas do ensino. Nem sei dizer como tudo vai sucedendo.
Parece, mamãe, que a vida é como um rio. As águas do tempo nos levam para diante e a gente vai seguindo, fazendo o que pode para não submergir e trabalhar de algum modo na viagem. Será que esta imagem me ocorreu, por lembrar aquele dia? Aquele dia que nós não queremos lembrar? Sei hoje apenas que, se a minha prova, ao partir, foi o desfalecimento na água, nós já derramamos muitas lágrimas para esquecer tudo o que deve ser esquecido...
Graças a Deus, vejo-a firme e valorosa, vivendo e servindo. Não avalia o que foram para mim os primeiros tempos... As suas aflições e as suas angústias. Suas palavras de pergunta e de dor buscando saber a razão do que acontecera me feriam profundamente, porque eu desejava explicar sem conseguir expressar-me.
Se o seu coração querido se colocar em lugar do meu, saberá como doíam aquele pranto e aquelas orações sentidas que recebia de seu carinho, ante o meu retrato e à frente do lugar onde as últimas lembranças ficaram entre nós. Não julgue que eu não ouvia. Chorei com as suas lágrimas, por muito tempo, e quando as suas primeiras esperanças vieram surgindo na alma, aceitando realmente a vida além da morte, a luz nascente em seu amor foi também minha luz. Agradeço hoje por tudo.
Não estou triste ao falar assim, mas é muito importante para mim exprimir agora o que sinto, com a possível demonstração de meus impulsos mais íntimos.
Agradeço o seu esforço para sairmos de nós mesmos ao encontro da fé; agradeço a sua obediência a Deus, procurando resignar-se com o problema que me assaltou quando eu menos esperava; agradeço a fortaleza que o seu carinho nos deu a todos; conquanto, às vezes, fugindo para a solidão do quarto, depois de muitas das nossas reuniões de família, para chorarmos a sós; agradeço o seu apoio valioso a meu pai e, sobretudo, a paz que hoje ilumina o coração de seu filho.
Peço-lhe. Continuemos trabalhando, plantando o bem... Aqui, Mãezinha, o que trazemos, é o que permanece conosco. E estejamos alegres. A vida é segurança e felicidade, trabalho e progresso para nós todos, conforme as leis de Deus. O sofrimento é semelhante à lagarta destruidora que, com invigilância, colocamos na flor da vida. Felizmente, ao ver o seu coração mais tranqüilo, pude asserenar-me e realmente reformar-me para viver.
Cada criança que a sua bondade ampara sou eu mesmo; cada peça de socorro aos necessitados que sai de suas mãos é bênção sobre mim. E aprendamos a esquecer todas as sombras que, porventura, hajam caído entre nós e a Vida - a Vida que é luz de Deus.
O trabalho crescerá para nós. Estou em seus braços, aprendendo a servir e estou em seu pensamento, conversando sobre os melhores caminhos que nos cabem seguir. Compreender, mamãe querida, e auxiliar sempre para o bem.
Seu apoio a meu pai, o nosso companheiro devotado de sempre, é para mim confiança e alegria. Às vezes, pensamos que seria melhor eu ter ficado para colaborar de algum modo nas tarefas que o Senhor nos deu a cumprir; entretanto, sabe Deus o que faz e vim mais cedo, para cooperar na construção de nosso futuro. A vida, mãezinha, é também uma espécie de livro em que lemos, a pouco e pouco, as circunstâncias em que nos encontramos enlaçados.
Somos hoje uma família maior. A princípio, quase quatro fevereiros de retaguarda, supúnhamos ser um grupo único, em nosso bairro feliz de São Paulo. Depois, de semana a semana, fomos descobrindo que somos muitos. Hoje, costumo rir de mim mesmo. Fantasiava escrever uma carta, revelando detalhes de casa e família, mas antes que eu pudesse grafar o que pensava, eis que o Chico veio a nós. Temos tudo em comum. Os conhecimentos do lar e os entes amados. Não consegui transitar nos fenômenos para reconhecer que o maior fenômeno é este profundo amor que nos reúne uns aos outros. Mesmo assim, envio lembranças às meninas e a todos - todos os nossos, desejando que a paz e a bênção de Deus estejam conosco em todos os passos. Aqui estão comigo vários companheiros e benfeitores.
Que ainda estou sendo auxiliado para escrever, não tenha dúvida. Não consigo relacionar os nomes de todos, porque a lista é grande, mas de amigos presentes destaco o amigo Salathiel e o amigo Oswaldo com parentes aqui e que se fazem sentir com muito carinho às nossas irmãs. Não sei ainda ser mensageiro, embora aqui me encontre firme nesta mensagem. Começamos bem neste mês de aniversário e espero, querida mamãe, estarmos sempre mais juntos.

terça-feira, 24 de julho de 2012

VÍDEO - "As cartas de Chico Xavier: uma análise semiótica" (Defesa de Mestrado)

Assista a apresentação da dissertação intitulada As cartas de Chico Xavier: uma análise semiótica,  defendida por Cintia Alves da Silva em 08 de março de 2012 no Programa de Pós-Graduação em Linguística e Língua Portuguesa da UNESP de Araraquara (SP).

Compuseram a banca os professores doutores Jean Cristtus Portela (orientador), Elizabeth Harkot de-La-Taille (USP) e Renata Maria Facuri Coelho Marchezan (UNESP).




Se preferir, faça o download do vídeo.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

DISSERTAÇÃO - As cartas de Chico Xavier: uma análise semiótica (Download)

Resumo: Este estudo tem como objetivo compreender os processos de construção do éthos, concebido enquanto “imagem” ou “identidade” do enunciador, nas cartas familiares escritas por Chico Xavier e atribuídas a “autores espirituais”, sob a perspectiva da Semiótica greimasiana. Por meio da análise das cartas psicografadas, pretende-se demonstrar como a sua configuração semiótica (enunciva e enunciativa) permite caracterizá-las como um tipo de texto em particular, diferenciando-o dos textos epistolares “típicos”. O córpus analisado é composto de dez cartas psicografadas publicadas entre os anos de 1973 e 1980 e atribuídas a três autores: Augusto César Netto, Jair Presente e Laurinho Basile. Entre os conceitos que orientam as análises estão os de práticas semióticas, contrato fiduciário, presença e as relações entre éthos e estilo. O percurso analítico deste estudo inicia-se pela definição da carta como objeto semiótico. Para isso, foram adotadas as contribuições de Jacques Fontanille, na aplicação de uma hierarquia de níveis de pertinência semiótica. Essa hierarquia permitiu a delimitação do percurso da carta psicográfica, desde a sua prática geradora até a sua inscrição em outros objetos-suporte. As noções de práxis enunciativa, práticas semióticas e gênero auxiliaram a caracterização do gênero epistolar psicográfico, enquanto objeto produzido no interior da prática psicográfica epistolar. A sua articulação com a prática de edição, em um nível estratégico, revelou-nos de que maneira a intervenção do editor resulta na ressignificação do texto, inserindo-o, assim, no âmbito editorial. Após a análise do córpus, foi possível constatar que o texto epistolar psicográfico é caracterizado por um éthos dual e ambíguo, coerente com os valores que permeiam a prática da psicografia epistolar.

Palavras-chave: Semiótica greimasiana. Éthos. Psicografia. Cartas. Chico Xavier.

BAIXE AQUI O TEXTO COMPLETO.>

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Carta de Jair Presente: "Falei mas não sei se disse"

Oi, Gente! Vocês aí, vocês mesmo, entocados nos bancos. Papai, minha mãe, Sueli, Carlos, Sérgio, Wilson e conexos.
Não coloquem a imagem desta mensagem no gibi de ensinar; isso é conversa de casa, fora da prensa de imprensa. Se eu não garanto já o jamegão (1) aqui deste modo, vocês estarão aí de olho cumprido e de espírito jururu. É duro isto, mas não fiquem matutando, encucados na idéia de que vou continuar assim; gíria não dá para nós, os que varamos o rio da mudança. Pedi favor para escrever assim, só para mostrar prá vocês que estou vivo, vivinho mesmo.
E quero dizer a meu pai que não fique de pensamento vidrado nas águas (2); se dei uma de peixe foi para nadar melhor. Fico abilolado quando meu pai começa a embarafustar na lembrança de Praia Azul. Papai tenha paciência. Voltei como vim. Não sabemos como é isso, não. Vamos deixar isso prá lá. Deus sabe tudo e em nossa moringa cabe somente alguma coisa.      Estou bem, estou melhorando, mas vou largar esse negócio de palavras giradas. Já saí da bananosa, começo a compreender que preciso educar meus impulsos. Educar impulsos é qualquer coisa de progresso. Não me lembro de haver dito isso, apesar dos livrocas que andei consultando. Isso quer dizer que já não me vejo com trutas que largam os deveres de mão para alfinetar o tempo e acabar com as horas.
Vocês aí!...Carlos que tu tás pensando? Não fique parado, não, depois de saber que o negócio não termina ali no meio das estátuas. Olhe rapaz, os dias vão correndo... Quando puder acompanhe minha mãe para dar serviço no serviço do bem (3).    Aqueles amizades nas panelas de sopa estão certos e os caras que somos nós, quando longe deles, é que ficamos nas risadas do já era. Trabalhar, meu amigo, trabalhar pelos outros.
Sempre acreditei que mendicância seria preguiça, conversa mole, mas o problema é diferente. Se temos de mudar qualquer coisa, temos de começar mudando a nós mesmos. E só existe uma transformação que vale a pena: ajudar os que precisam mais do que nós para que larguem de precisar.
Você e Sérgio, venham também.
Wilson anda arrepiado num medo fora de série (4), mas já veio. Está batucando sem passar por cima da verdade. O moço está querendo mesmo transar diferente. Muitas vezes ele me sente perfeitinho junto dele, mas e a paúra? Ele diz que deseja me ver, mas se eu pintar mesmo diante de vocês, já sei que sairão pirandelando por aí. Não conte com isso, não. Essa de parecer fantasma já era mesmo.
Só aqueles caras gamados com casa e comida é que ficam aí, às vezes, até procurando esquecer tudo com umas e outras. Mas vocês já sabem. Essa de pinga não cola (5).
Gostamos da vida e fomos irmãos de alegria e de esperança; no entanto, nada sabemos de trampar com essa ou aquela prisa. Fomos e somos rapazes decentes e porque largamos cabelos nas caras para não ficarmos caretas, isso não é motivo para sermos espíritos adoidados, querendo o que não se deve querer.
Wilson, tu tás abilolado a toa. Não pense que tudo aqui seja concedido de mão beijada. Prato feito acabou. Mentira não vale. Toda conquista pede tempo e suor, creio que mais suor do que tempo.
Mediunidade é transmissão. Tarei na onda certa? Creio que sim, embora não tenha as palavras para explicar. Vocês agora aí tão interessados em comunicação, saibam disto: cada um dá o que tem. Isto pode ser de coisa passada, mas é muito válido.
A gente aproxima do médium e quer falar, e aí temos de güentar o assunto, porque só falamos em dupla; o médium quando não tem muito exercício nos passa prá trás e fala na frente. Vocês ficam parados na fachada e esquecem a faixa em que nos achamos. Por isso, Wilson, é que nestes casos que hoje vemos é melhor que a cuca não fique botando banca. É hora do coração conversar. Não quero que você esteja santo, mas também não desejo que você fique esperto demais. Nem anjo, nem gato. Fique você mesmo e observe que a crista do problema é auxiliar outros para sermos auxiliados. Hoje vivo partindo para essas novas atitudes que me façam mais útil. Viver bem para encontrar o bem e ser melhor.
Se a gente morresse mesmo, era só seguir entre a preguiça e a rede; no entanto, a morte é uma passagem que parece aquela porta dos contos de fadas. Vocês abraçam a gente movimentando gritos e lágrimas e o cara não consegue falar bolacha. Estamos encantados pela bruxa que não se vê, mas posso dizer que é uma bruxa inofensiva, porque nem a vemos de leve. A morte chega e decerto bate aquela varinha em nossa cabeça; a gente dorme, acorda com vocês chamando e chamando, e aos poucos saímos do barro ou da pedra. O negócio é isso.
Quero que ocês todos fiquem aí até que o mofo espante vocês do saco de pele e ossos; peço a Deus que todos se arrastem de velhos, mas eu não sei se isso vai acontecer. De qualquer modo preparem-se, para vir algum dia. E saibam que só temos aqui o que damos e só sabemos o que colocamos por dentro de nós.
Em negócio de sexy, fiquem acesos para pensar melhor. Não brinquem com fogo, que o fogo nesse assunto queima muito mais do lado de cá.
O que vocês prometem cumpram (6).
E o que fizerem no campo dos tratos saibam tratar, porque o amor é uma luz que não aparece em querosene de papagaiadas de conversa furada.
Estão abrindo a boca perto de mim, creio que os amigos estão cansados. Já escrevi muito. E se continuasse, o papel necessário, não está apontado no gibi. Vocês não se impressionem com o que digo. Vivam corretos e tarão certos. Não dou para ensinar porque não sou santo. Desculpem.
Mamãe e papai, concedam aí uma bênçãos ao filho agradecido.
Sueli, acertemos tudo no coração para fazer o bem.
Vocês, meus cupinchas, não fiquem rindo, não. Coloquemos a cuca para jambrar e busquemos o que estiver certo; Carlos, Sérgio, Wilson e nossa amiga, favoreçam este espírito de rapaz supostamente afogado com os pensamentos bons, com o que puderem dar aí para mim; vou melhorar, estou caminhando e caminhando para frente.
Hoje, escrevi adoidadamente, mas voltarei com siso e juízo. Não posso empregar palavras mais fortes neste tchau e é preciso acabar esta carta antes da matina.
Recebam o maior abraço da paróquia.
Falei mas não sei se disse.

Jair

25 de agosto de 1974.



Comentários

Aqui os nomes citados já nos são familiares. Há que se acrescentar o Wilson e conexos, mencionados no início da mensagem.
Wilson Carlos de Lima, também amigo do Jair, estuda juntamente com o Sérgio na Fundação Pinhalense de Ensino.
Em sua fala descontraída de jovem alegre, aludindo a "conexos", Jair designa duas jovens de Campinas que se encontravam com o grupo na reunião.
Vamos, para melhor situar a mensagem, destacar fatos e pormenores de que Chico não tinha conhecimento algum.

1 - Jamegão como "falei", palavra muito usada pelo Jair.
2 - "quero dizer a meu pai que não fique de pensamento vidrado nas águas" - O pai de Jair, Sr. José Presente, contou-nos que muitas vezes, à revelia dos familiares, ia até a Praia Azul, para saber de detalhes ligados à morte do filho. Jair em sua carinhosa advertência pede ao pai que assim não proceda mais.
3 - Após a primeira mensagem de Jair, sua mãe passou a colaborar na instituição dirigida por D. Wandir Dias, o Movimento Assistencial Espírita Maria Rosa, conhecido como Casa da Sopa do Grameiro, bairro onde se localiza a Obra que oferece sopa aos necessitados.
4 - "Wilson anda arrepiado num medo fora de série" - fato confirmado pelo Wilson que afirma ver-se trânsido de medo muitas vezes, ao sentir a presença do Jair, como aliás o próprio Jair confirma na seqüência da mensagem, quando diz: "muitas vezes ele me sente perfeitinho junto dele, mas e a paúra?"
5 - "Essa de pinga não cola" - Advertência de Jair aos amigos Carlos, Sérgio e Wilson que contrariando os hábitos do grupo passaram a procurar nos goles de caninha o esquecimento da saudade que os torturava, após a morte de Jair.
6 - "O que vocês prometem cumpram" de fato, os jovens amigos de Jair, prometeram participar da sopa fraterna no Grameiro, em homenagem à memória do saudoso amigo, tão logo souberam que Jair havia dado comunicação através de Chico Xavier. Contudo, logo esqueceram a promessa e Jair veio lhes puxar as orelhas...

O fecho desta mensagem também identifica o estilo de Jair, quando "vivo". Aliás, outras palavras foram reconhecidas por sua irmã Sueli, como sendo de uso habitual pelo Jair. É o caso de "pirandelando", de uso incomum, que encontramos nesta mensagem e que, segundo Sueli, Jair usava habitualmente em casa.
Em sua correspondência epistolar numerosa, Jair falava muito em "antes da matina", (como fala no fim da mensagem), posto que suas cartas eram escritas geralmente às três ou quatro horas da madrugada. [Notas do editor Caio Ramacciotti].

FONTE:

XAVIER, Francisco Cândido. Jovens no Além. [Espíritos Diversos]. 24 ed. São Bernardo do Campo: Geem, 2005.  p. 114-117.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Carta de Laurinho Basile: "Libertação"

Mamãe querida.
Seu filho pede a bênção.
Saudades condensadas dão isso. Uma vontade imensa de mostrar amor.
Entretanto, ausência para nós já era. Estamos naquela da união para sempre. Morte mais se parece a um espantalho na lavoura.
Enquanto a Maturidade não chegar para o coletivo das criaturas, é preciso pintar essa abertura com sinais que metam medo. Isso é lei de Deus. Instinto de conservação. Defesa comum.
Se todas as pessoas, de uma só vez, pudessem compreender a chamada Libertação, é muita gente que desejaria pirandelar.
E fuga não é flor que se cheire. Pos aí, somos obrigados, para a nossa felicidade, a enfrentar a pedreira e rebater a picareta sem picaretagem. Trabalhar e aprender.
O corpo não é farda de que se possa desertar por bagatela. A morte precisa dessas pompas de cores estranhas e rituais encharcados de lágrimas. Semelhante indução ao receio é necessária, porque são muitos os cultivadores do capim mimoso querendo arrear o fardo educativo antes da hora.
Mas retomemos o fio. Mamãe agradeço.
Estou quase feliz, não fosse o muro. O muro vibratório que aparentemente nos segrega em faixas diferentes da força.
Reencarnação do espírito, a meu ver, se não estou dando alguma de curioso frustrado, é o mesmo que a pessoa se colocar numa espécie de voltagem diversa daquela que conhecemos por aqui.
Tudo é posicionamento elétrico, ou quase tudo, no campo de nossas vidas. O cérebro de alguém, no carro físico, está em circuito diferente para nós tanto quanto nós temos a cabeça instalada em outras dimensões da energia.
No meio dessas ramificações todas, com transformadores e conexões adequadas por toda parte, o coração é o amor e amor independe de quaisquer implementos para expressar-se.
Em razão disso, estamos nós na reciprocidade.
Eu penso e você pensa, você pensa e eu penso, isto é, conjugamos os mesmos sentimentos em cuja equação as idéias somam igualmente. Sei. Não precisaria escrever para que o seu carinho me reconhecesse na sobrevivência em que antecedi a vivencia de tantos.
A empatia é o nosso clima, tanto quanto a comunhão intima é o nosso lar.
Continuo e continuamos, você e eu, agradecendo. Temos sido muito felizes, dialogando com tantos amigos de varias faixas etárias. Creia. Temos falado juntos.
Peço a sua paciência e prossigamos em marcha. É muita juventude perguntando, muita infância a desesperar-se, muita madureza a desfazer-se em pranto e aflição.
A hora é mesmo de permuta.
Comunicação inadiável. E o importante é que essa comunicação é de fio pessoal.
Fácil observar para nós dois que, criatura a criatura, a mensagem pede adequação. A verdade é uma só, no entanto, a interpretação é serviço indispensável no domínio de cada um.
Estou agradecido ao seu esforço. Mãe querida, isso tudo é um campo novo para nós.
Você me percebe e me ouve sem que os tímpanos do corpo registrem minha voz. Isso me alegra, porque afinizados um com o outro, quais as cordas de um violino, em mãos de artistas do Mais Alto, formamos uma dupla e estamos construindo um futuro iluminado de bênçãos.
A prece é a tomada. Os pensamentos são fios que nos interligam. E a nossa palavra reflete de improviso os esclarecimentos que me alcançam, procedentes de amigos que me antecederam por aqui.
E centralizados em Deus, por Jesus Cristo, seguiremos empregando o melhor que pudermos, na formação de caminhos para os que se perderam da estrada real, às vezes marginalizados na revolta e no sofrimento.
Você e eu, juntos, responderemos ao conteúdo da Gaveta da Esperança.
Tantas bênçãos, tantos recados de carinho! Gratidão para todos os corações queridos.
Minha emoção é tamanha que, freqüentemente, a lágrima de enternecimento é a resposta que se nos fez possível. A bendita lágrima do amor, síntese de saudade e ternura, convivência e devotamento constante.
De meu lado, querida Mãezinha, informo que estou vivo. Se me perguntarem como, formularei a contra pergunta: de que modo morre a água na Terra a fim de pairar no Espaço, em estado positivamente oposto ao sólido em que a vemos no mundo?
Pois é. A água também morre e sobrevive e igualmente retorna ao campo dos homens, na incapacidade de demonstrar às balanças terrestres de que maneira se gazificou esse rematerializou na chuva benéfica, nas ocasiões em que não se volatiza, de todo, para integrar-se em outras substancias da vida cósmica.
A realidade é que eu mesmo, continuando a agir e aprendendo a servir para ser aproveitado com mais eficiência na maquina do bem de todos.
Sigo o nosso querido pescador em suas preces que são também minhas, rogando aos Mensageiros de Jesus para que meu pai esteja sob as bênçãos de Deus.
Em casa, rejubilo-me com a tranqüilidade que se vai refazendo...
Ra e Shell com a querida Menesta e com o Josetinho e os outros corações amados me proporcionam imensa alegria.
Yo e Petar com Gus e Guil e mais o pessoal entrante ou aspirante à entrada na família, são maravilhosos companheiros. Mirta e Lu são as estrelas novas em explosões de esperança e de alegria. Todo o amor para ambas.
Peço a Lu compreensão para a Pupy.
Aquele coração de carinho, pulsando sobre as patinhas não sabia ler. Por mais se lhe dissesse o que, por enquanto se lhe diga a linguagem filosófica dos que se separaram entre lágrimas e inquietações, nas fronteiras da morte e da existência, nada lhe atingiria a sensibilidade e nem lhe abordará, por agora, o entendimento simples.
A querida companheirinha não tem ainda forças para entender que não há Vazio.
E carência, Mamãe, quando não aceita sob a luz da fé em nossos mais elevados destinos, é anemia da alma. “Pingo d’água mole em pedra dura...”
De cá, entretanto, teremos recursos para auxiliá-la, mas isso, por enquanto, é uma oura historia. Se muitos não entendem os assuntos de Laurinho sobrevivente, como assimilarão certas realidades sobe os animais, especialmente aqueles que se nos fazem mais íntimos e mais queridos?
Muitas flores de carinho para a Vó Lourdes e Vó Genoveva extensivamente do avô inesquecível.
O vovô de residência em meus ranchos de agora, está comigo. Companheiro e benfeitor, com quem meus débitos vão subindo.
A proposta do Toninho é quase uma cascata.
Imagine se eu pudesse complementar um computador em nossa querida paisagem, seria um clandestino nas instituições de ciência no mundo.
Depois de uma palavra no domínio das probabilidades, porque, em verdade, sou, até agora, um Laurinho tão experimentador quanto antes, na hipótese de acertar, levantaria horrores de indagações.
Naturalmente, companheiros de pesquisa me mobilizaram para resolver problemas da Humanidade, com tal impacto de confiança que eu mesmo terminaria a aventura no caso do peão que caiu de modo sesquipedal, depois de ouvir aqueles que lhe superestimavam os méritos.
Não posso colocar o carro antes do combustível.
Devagar. A viagem de um país para outro não dá pedal para milagres. Toninho que trabalha aí que continuo a esforçar-me daqui.
Entretanto, se ele quer uma dica, procure o Sergio Pistelli, a e a Maria Beatriz que conhecemos no Eletrotécnico de Mococa e vá em frente. Se as invenções ficassem na conta de um cérebro mágico, a ciência não progrediria. E todos precisam de vez.
Presentemente mantenho a voz em outros trombones, mas o teste do Toninho está bem bolado.
Ainda assim, outra pala valiosa para o amigo é o serviço de apoio à Santa Casa.
Estou na atualidade computando outras jogadas e não posso perde a bola.
Disciplina. Essa misteriosa deusa é por demasiado exigente.
Sigamos no “Very slowly”.
Que ele me desculpe essa pretensão. É só para inglês ver.
Mãezinha, recebo os pensamentos da Selma e da Lu, de coração amolecido.
Afinal, creio hoje que nasci num ninho de estrelas e você Mamãe, com um pai, é a dona dessa prodigiosa constelação.
Meu carinho a todos. Evaldo e Tadeu, por força dos laços que nos reúnem hoje com mais peso de solidariedade, estão presentes e se fazem lembrados aos familiares queridos.
Abraços ao Pantera e a todos os Bichos admiráveis que moram no Zoológico de meu coração.
Amor pra todas as amizades, incluindo as companheiras dedicadas, meninas iluminadas de esperança às quais me sinto o irmão de sempre.
Mamãe, agora, é o fim da carta.
Quantas laudas neste processo de saudade e carinho? Ainda não sei. Conte-as a querida Barata sempre minha inspiração e luz, Vida e mestra.
Se me esqueci de nomes de nossa intimidade, isso é milonga de papo amigo, porque tenho o meu listão na memória, mas não posso estirá-lo aqui  no papel.
Você Mamãe, dirá a todos, os meus amigos, que enviamos lembranças  e um abração de fraternidade. Lembro o papai em minha gratidão e ternura de filho e entrego pra Você o meu coração.
Amor infalível e devoção total de seu filho

Laurinho.

Uberaba, 19 de junho de 1978


IDENTIFICAÇÕES

Nesta carta, Laurinho se refere à chamada “Libertação”, esclarecendo que, se a pudéssemos compreender muita gente haveria de querer partir.
Mas essa partida não pode ser por nossa vontade, porém pelos desígnios de Deus. Do contrario, seriamos suicidas, e estes, para cumprirem o tempo que deveriam permanecer na Terra, vão para um lugar nada agradável chamado “Umbral”.
*
Adiante, afirma Laurinho: “É centralizados em Deus por Jesus Cristo, seguiremos empregando o melhor que pudermos na formação de caminhos para os que se perderam...”
Mães, mães desesperadas, desanimadas, confiem no Cristo! Ele estenderá sempre as mãos para todos aqueles que as solicitarem.
Ter saudade, muita saudade, é um direito de todas nós, e a saudade tende sempre a aumentar. Costumo afirmar que a saudade é a nossa maior prova neste Planeta de expiações.
Mas é preciso ganhar compreensão, equilíbrio e trabalhar para o bem comum, sem esperar retribuições. É preciso estudar muito, se aprofundar nos ensinamentos do Cristo, à luz da Doutrina Espírita, para que a razão aceite estas verdades.
Nossos filhos estão vivos, trabalhando por nós e por eles, na maquina do bem de todos.
Realmente, Laurinho reafirma: “De meu lado, Mãezinha, informo que estou vivo.”
Se pararmos para pensar, temos que agradecer a Deus por tudo isso, pois, apesar de o nosso coração continuar sangrando, o sofrimento nos abre oportunidades de renovação e aprendizado.
Mães e irmãs! Pensem em nossos filhos trabalhando em outro “continente”, pela nossa melhoria e que isso só acontece com a permissão do Mais Alto.
*
É interessante notar como Laurinho explica a reencarnação em termos eletrônicos e compara a morte com a água.
Laurinho refere-se a Pupy, a cachorrinha que, a seu ver, sendo seu melhor amigo, foi se definhando, acometida de tristeza, e partiu seis meses após sua “viagem”.
Antes de partirmos para Uberaba, em nossa casa, às sete horas e trinta minutos, Pupy encerrou sua vida.
Nessa mesma noite, vem Laurinho com esta fabulosa mensagem e confirma o diagnostico dos veterinários:  tristeza. Só que ele define como sendo “anemia na alma”.
Com tudo isto vem nos reafirmar que não há Vazio. E a Doutrina Espírita, com Jesus, vem nos conscientizar que, realmente, não existe o Vazio.
*
Também a proposta de Toninho, um jovem até aquela data materialista, foi colocada, por ele mesmo, na Gaveta da Esperança.
Com esse teste, tentou desafiar – é a palavra exata – nosso Laurinho em suas comunicações de um outro plano e recebeu ao pé da letra.
De tudo o que Laurinho escreve, dou ciência aos seus amigos, que estudam os mínimos detalhes, e não nego que tudo isso vem causando um “terremoto”, principalmente na juventude de Mococa e cidades circunvizinhas.
Não se esquecendo dos amigos, envia-lhes sempre o seu “alô” tão positivo, inspirando, cada vez mais, certeza numa Vida Maior, repleta de Fé e Amor ao próximo.
Mães e irmãs, quisera que soubessem quanta coisa Laurinho vem modificando!
A juventude é boa; falta-lhe motivação, alguém que a ouça e compreenda, que esteja disposto a falar a sua mesma língua.
Em geral, os moços nem sempre estão preocupados com o próximo; mas por aqui está acontecendo o contrario: estamos recebendo toda a cooperação em tudo o que fazemos, e com a melhor boa-vontade.
Tudo isto devemos às mensagens e aos inumeráveis livros de Chico Xavier, que rodam de mão em mão.
Louvado seja Deus! Com sua permissão, tudo continuará melhorando, se aperfeiçoando.

IDENTIFICAÇÕES:
Pupy - Cachorrinha da família, que merecia muito cuidado e carinho por parte de Laurinho. Desencarnou em junho de 1978.
Toninho - Sebastião Antonio cunha, residente à Rua Lucio Leonel n. 5, em Casa Branca. Trabalhava com Laurinho no campo das invenções. Laurinho deixou com ele o desenho de um computador, que se achava incompleto e pediu-me para obter de Laurinho a formula final. O pedido foi depositado na Gaveta de Esperança e respondido por Laurinho.
Sergio Pistelli - Grande amigo de Laurinho, exercendo o cargo de Secretario no Colégio Técnico João Baptista de Lima Figueiredo, em Mococa, SP, onde diplomou-se Laurinho. Sergio e família residem nesta cidade, à rua Ipiranga.
Maria Beatriz - Maria Beatriz L. de Oliveira – orientadora educacional do Colégio Técnico Industrial João Baptista de Lima Figueiredo, de Mococa, SP. Foi grande amiga de Laurinho.
Pantera - Antonio Borzani, residente em Casa Branca. Amigo de Laurinho, seria seu companheiro em São Carlos quando fossem cursar a Engenharia, morando juntos.


FONTE
XAVIER, F. C. Gaveta de esperança [espírito Laurinho Basile]. Araras (SP): IDE, 1980.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Carta de Roberto Muszkat

Querida Mãezinha Sonia, meu querido Pai e irmãos sempre amados, a Bênção da Paz permaneça conosco.
Estou emocionado. Uma festa diferente num ambiente novo. Celebração dos vinte novembros na Terra. Não sei como escrever o que sinto. Ficaria contente se pudesse usar minhas próprias lágrimas de alegria para configurarem palavras o júbilo de que me sinto possuído.
Pais queridos, nunca imaginei, em minha existência ligeira, pudesse comemorar o primeiro aniversário de minha permanência no Plano Físico, depois de haver passado pela chamada "liberação do corpo" (1). Agradeço o carinho que colocaram em nossas lembranças.
A Mãezinha Sonia, para a nossa felicidade tomou a veste branca, após o luto de tantos meses de saudade e quase desolação. Os irmãos esvaziaram as poupanças para me presentearem na pessoa de nossos companheiros menos felizes (2). E o Céu, segundo esperamos, nos proporcionará no entardecer de amanhã uma festa brilhante, de corações para corações, como nunca pensei conseguir presenciar.
Dizer "muito obrigado" é tão pouco, no entanto, querido pai, o que fazer senão aproveitar os recursos que se tem para manifestar os nossos melhores sentimentos?
Desejava ser eu mesmo a dádiva de paz e fraternidade a ser entregue, a fim de louvarmos não a minha memória pessoal e, sim, o Eterno Doador de Tudo o que possuímos.
Não me descarto da nossa alegria e, por isso, aspiro a dizer que todas essas bênçãos pertencem à Sabedoria do Amor Infinito que nos reuniu para sempre nos laços benditos da comunhão espiritual em que nos reconhecemos.
Querida Rachel, queridos irmãos Moises, Renato e Ricardo, conservando igualmente a Rosana por flor de carinho a enfeitar-nos as lembranças, agradeço a vocês todos, irmãos queridos, pela felicidade que me ofertam e pelas mensagens de ternura que me dirigiram.
Espero que nossos pais sempre queridos se orgulhem de nós, no desempenho de nossos deveres, através do tempo e da Vida. É verdade que a Lei me transferiu de residência, mas não me alterou os sentimentos. Sou o mesmo irmão amigo e reconhecido que lhes deve tanto.
Aos pais amados, o nosso reconhecimento por nos haverem recolhido nos braços, habilitando-nos para viver segundo os preceitos da Luz Divina que nos regem a existência.
Mãezinha querida, agradeço a sua fé, o seu entusiasmo na construção do bem, a sua confiança na Espiritualidade e o seu dom de servir, tão claramente manifesto, na preparação da alegria que me reservaram.
Estou feliz e formulo votos para que a nossa plenitude de paz doméstica consiga envolver todos os ingredientes do nosso encontro com a família maior, junto da qual nos reconheceremos cada vez mais integrados em nossos compromissor de fidelidade ao Santo dos Santos.
Papai querido, estou satisfeito e comovido com a sua presença. Conheço a extensão de suas responsabilidades e obrigações e sei quanto vale cada hora de sua presença, especialmente junto de nossos doentes, pedaços da família espiritual que os Mensageiros do Bem Eterno colocaram em nossos braços.
Beijo-lhe as mãos reconhecidamente e faço preces do coração por sua tranqüilidade e segurança.
Conversei com a Mãezinha Sonia sobre as minhas primeiras impressões da Vida Espiritual, quando pude tomar do lápis pela primeira vez, entretanto, hoje, com permissão de nossos Mentores Maiores, peço o seu consentimento para contar-lhe que o meu desligamento do corpo foi rápido.
Horas antes, nada previa com relação ao acontecimento significativo que me aguardava. Preparava-me para o descanso depois de haver medicado o trato nasal, quando senti no peito algo semelhante a uma pancada que me alcançou todas as redes nervosas.
Tentei falar mas não consegui. Um torpor suave se seguiu ao fenômeno e notei que um sono compulsivo me invadia a cabeça.
Percebi, intuitivamente que me deslocava do corpo, embora permanecesse vinculado a ele, quando em meio do esforço para definir o que sentia para a análise de meu próprio raciocínio, ouvi nitidamente sobre mim a voz inesquecível de alguém pronunciando as santas palavras: "Baruch Dayan Emet" e reconheci que a frase não partia dos nossos de casa...4)
Busquei identificar-me com a sublime expressão de louvor, mas o torpor aumentava. O frio nas extremidades me compelia a admitir a presença da liberação física e rendi-me aos desígnios do Eterno, tentando seguir o rumo em que a voz se expressara, qual se me houvesse transformado num pássaro ansioso por saber a direção do meu novo ninho, já que não mantinha mais qualquer dúvida sabre a ocorrência que me separava da moradia corpórea, à maneira do inquilino que se vê expulso da própria habitação, atendendo a influências compulsivas; no entanto, entre aquela voz e eu mesmo estava o desmaio que me consumia o discernimento...
Foi quando tomado de estranha sensação de bem-estar, escutei ainda as palavras: "Leshaná Habaá bi-Yerushalayim".5) Compreendi que era um adeus e dormi com a tranqüilidade de uma criança. Mais tarde, soube que o meu avô Moszek Aron ditara em meu favor aqueles vocábulos santos para que me aquietasse, contando com os imperativos do Mais Alto.
Quando acordei, me via num leito alvo com a Vovó Rachel velando por mim. Dias se passaram, sem que eu lhes saiba da conta. Entendi sem relutância que já não mais me encontrava em nossa casa e, sim, numa "outra vida", que se fazia surpresa e deslumbramento para os meus pensamentos de moço.
Depois de algum tempo, o Vovô Moszek veio ao meu encontro. Reanimou-me. Restabeleceu-me o auto-controle e a auto-confiança. Quando me buscou pata encontrar outros amigos no recinto dedicado à oração, no amplo educandário-hospital, chorei de emoção ao observar que formosa turma de pessoas amigas, que eu não conhecia, pronunciava as palavras: "Boi Beshalom". 6) Em seguida, cantaram, esses novos companheiros, o hino Shalom Aleichem. 7)
Terminado o cântico, meu avô Moszek achegou-se a mim e assinalando-me com o "Maguem David" 8) falou, abençoando-me:
- Deus te faça igual a Efraim e a Menashés. 9)
As lágrimas banharam meu rosto, enquanto o avô promovia o Seder 10) em cuja reunião pude fazer muitas perguntas. Vim a saber então que me achava em Erets Israel, ou Terra do Renascimento, cuja beleza é indescritível. 11)
Ali, naquela província do Espaço Terrestre, se erguia uma outra cidade luminosa dos Profetas. Os que choraram no mundo, os que sofreram torturas, os que foram martirizados e queimados, perseguidos e abatidos por amor à Vitória do Eterno e Único Criador da Vida operavam repousando ou descansavam trabalhando pela edificação da Humanidade Nova.
Com estes apontamentos não quero dizer que estava tanto quanto prossigo, numa cidade privilegiada, porque outras nações as possuem nas esferas que cercam o Planeta, mas aquele recanto era o meu coração pulsando com milhares ou milhões de outros corações, consagrados ao Pai Único.   
Pai querido, lembrei-me de nossa união no Lar e chorei de saudade e esperança, amor e alegria. Revisei a imagem da família querida e reunindo o seu carinho, a ternura de minha mãe e a dedicação de meus irmãos por dentro de minha própria alma, enviei-lhes, sem saber como fazia semelhante mensagem, as palavras inolvidáveis de Ruth a Noemi: "Onde fores, também irei, o seu povo será o meu povo, o seu rei será o meu rei".12)
Pelo que digo, são capazes de avaliar as minhas emoções na Vida nova em que me reconheço, começando a estudar e a trabalhar, sob clima diferente do Mundo Físico.
Meu avô Moszek presente aqui me solicita terminar a narrativa do que me aconteceu e acontece. Veio ele, com um amigo de nome Moritz Heiman e, em minha companhia, está o Moyses Zatyrko que saúda os queridos pais, Rosa e Boruch.13)
Desejava prosseguir, mas não posso.
Meu querido pai, muito grato pelo crédito que me concede, fazendo companhia à Mãezinha e aos irmãos queridos para compartilharmos das mesmas alegrias e das mesmas orações. Diz meu avô que amanhã, antes de começar o novo dia do calendário, teremos o nosso "Oneg Shabat" 14) e estamos todos felizes.
Pais queridos e amados irmãos, agradeçam por mim aos amigos que me hospedam neste recinto de paz e recebam todos juntos o abraço de muito carinho e muito amor, com muita esperança no futuro e muita fé em nossas realizações no presente, do filho e irmão reconhecido.
ROBERTO MUSZKAT
16 Novembro 1979

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NOTAS DE DAVID MUSZKAT (pai de Roberto):
1) Desde a partida de Roberto para o Plano Espiritual, seus pais e irmãos comemoram-lhe o aniversário de nascimento em Uberaba, no Hospital do Fogo Selvagem e num dos bairros pobres da cidade, distribuindo mantimentos, roupas e brinquedos. O leitor observará, também, em outras mensagens a importância que Roberto confere a tais comemorações, em função de seu alcance social e de seus exemplos de solidariedade humana, pois beneficiam centenas e centenas de pessoas.
2) Roberto mostra-se reconhecido aos irmãos, que, para participar das festas de luz que os genitores organizam, servem-se de suas poupanças, oferecendo-nos extraordinário exemplo de abnegação e de respeito aos companheiros mais carentes.
3) A mensagem foi recebida no dia do aniversário de Roberto e, às vésperas da comemoração programada em sua homenagem,chovia bastante e sua mãezinha não escondia apreensão ante a perspectiva de chover também no dia seguinte, o que tisnaria o brilho da festa. Roberto captou as preocupações maternas e disso faz referência na mensagem. Felizmente, na tarde do dia seguinte o sol fez-se presente e a reunião festiva fui das mais belas.
4) É da tradição hebraica que como ato final da cerimônia de sepultamento de um familiar, com o corpo presente, os parentes mais diretos façam uma oração que termina com a frase:
- Baruch Dayan Emet - Abençoado seja o juiz verdadeiro ou abençoado seja o juiz da verdade.
Com a mesma frase, Roberto foi recebido pelo avô no Plano Espiritual.
5) Leshaná Habaá bi-Yerushalayim - O ano que vem em Jerusalém.
6) Boi Beshalom - Venha em paz.
7) Shalom Aleichem - Hino que dá as boas vindas aos anjos da paz, cantado na sexta-feira à noite.
8) Maguem David - estrela de David.
9) Deus te faça igual a Efraim e Menashés - irmãos gêmeos, filhos de Jacob. Esta frase é uma tradicional bênção paternal.
10) Seder - a ceia festiva na primeira e na segunda noite da Páscoa judaica. Comemorar o Seder, era hábito muito cultivado pelo avô paterno, antes de falecer.
11) Erets Israel - Terra de Israel.
12 ) Conforme nos fala o Velho Testamento, Noemi tinha dois filhos casados com moças moabitas (não judias) e Ruth era uma delas. Com a morte dos filhos, Noemi retornou a Israel, em companhia de sua nora Ruth que se converteu ao judaísmo, dizendo a Noemi as palavras citadas por Roberto.
13) Provavelmente, Moritz Heiman, amigo de seu avô paterno, ao tempo em que residia na Polônia, nos idos de 1920. Moyses Zatyrko, filho de Rosa e Jaime Boruch Zatyrko, comandante da TAM, conhecida companhia aérea paulista, faleceu em acidente aviatório no dia 8 de fevereiro de 1979, nas proximidades de Bauru (SP). Sua genitora, D. Rosa Zatyrko, se encontrava em Uberaba, quando da recepção desta carta mediúnica.
14) Oneg Shabat - literalmente significa "alegria de sábado" comemoração festiva no dia do descanso, o sábado (Shabat).

XAVIER, Francisco Cândido. Quando se pretende falar da vida. [Espírito Roberto Muszkat]. Coletânea de cartas organizada por David Muszkat. GEEM, 1984.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Elias Barbosa e as cartas de Chico Xavier

Entrevista de Elias Barbosa à Revista Reformador, no final do ano do Centenário de Chico Xavier. Um dos mais importantes biógrafos e editores da obra epistolar de Chico, Barbosa fala do trabalho com as mensagens e livros psicografados pelo médium mineiro.

[...]

Reformador: Qual a sua motivação para elaborar o primeiro livro com mensagens familiares, psicografadas por Chico Xavier?

Elias Barbosa: Devido ao desespero dos pais, principalmente das mães que me procuravam, não só quando me encontrava presente no momento em que o médium Xavier estava psicografando, quanto em meu lar e, o mais das vezes, no consultório, onde muitas compareciam debaixo de uma depressão profunda, visivelmente com o processo de luto não resolvido. Grande parte delas alimentava, conscientemente, ideário suicida, numa época em que os timolépticos apresentavam efeitos colaterais desagradáveis. Em todos os casos, recomendávamos o estudo das obras de Allan Kardec e as de Emmanuel e de André Luiz, recebidas pelo nosso inesquecível Chico, sugerindo trabalharem na caridade, em nome do filho, da filha ou do cônjuge desencarnados em situações aparentemente trágicas.

Reformador: Na época, fez contato com os familiares dos Espíritos comunicantes, para análise das mensagens?

Elias Barbosa: Sim. Logo após a recepção da mensagem e a leitura dela, pelo nosso Chico, já que a maioria das mães e alguns pais choravam convulsivamente onde se encontravam sentados, sabendo, de antemão, que se tratava do filho ou filha que demandaram o túmulo. Eu procurava esses pais e solicitava a gentileza de me fornecerem os dados precisos e concretos das mensagens psicografadas que caracterizavam o estilo dos respectivos Espíritos comunicantes. A maioria, gentilmente, fornecia-me os dados comprobatórios da autenticidade da mensagem. Outras vezes, íamos até os hotéis em que se hospedavam, com vistas a nos contarem mais detalhes a respeito do Espírito comunicante, quando na Terra.

Reformador: Chegou a realizar alguma pesquisa nas referidas mensagens?

Elias Barbosa: Sim, a maioria delas, detalhadamente, sem qualquer preocupação científica. Numa das noites a que eu assistia, Chico psicografou uma página de um rapaz que se deu a conhecer por Wilson; sua mãe ficou o tempo todo em prantos, querendo, de toda forma, aproximar-se do médium. Tranquilizei-a dizendo-lhe que eu iria com ela até onde se encontrava o caro Chico. Mas perguntei-lhe se tinha consigo uma foto e, se possível, um documento com a assinatura dele. Foi quando ela me mostrou a Carteira de Trabalho, não somente com a foto, mas também com uma nítida assinatura, que era semelhante à que se encontrava na mensagem. Todos os presentes ficaram emocionados e eu solicitei àquela senhora se ela poderia me emprestar o precioso material para tirar uma cópia fotostática, já pensando em publicá-la num livro em andamento. Assim o fiz, e depois coloquei-a num dos livros que organizei em parceria com Chico Xavier, tendo repercussão internacional, já que um livro traduzido no Brasil e editado pela hoje extinta Editora Bloch, de um autor inglês, trazia, na última página de sua bela obra, um estudo honesto sobre esta ocorrência, sem que ele houvesse constatado a documentação a foto e o fac-símile da assinatura do jovem trabalhador, que se transferiu para o plano extrafísico, por afogamento.

[...]


FONTE: Revista Reformador, Ano 129, Nº 2187, Junho 2011.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Mãe fala sobre as cartas de Chico Xavier

Célia Diniz descreve as sensações e como encarou a morte e o recebimento de cartas de seus filhos através do médium

Ângela Moraes - Especial para o JC

Aos 10 anos, Rangel voltou ao plano espiritual por um acidente de bicicleta. Aos 27, sua irmã Mariana também, em virtude de dengue hemorrágica. Na Terra, ficou Célia Diniz, vice-diretora hoje do Centro Espírita Luiz Gonzaga [Pedro Leopoldo, MG] e uma das mães que buscaram o alívio nas cartas de Chico, assim como no filme “As mães de Chico Xavier”, na personagem vivida por Vanessa Gerbelli. Em entrevista especial ao Jornal Momento Espírita e Jornal da Cidade, Célia relata o feliz reencontro de seu coração com as palavras irrefutáveis de seu filho, pelas cartas de Chico, bem como a bendita consolação vinda através do conhecimento da realidade espiritual:

JC - Quantas cartas você recebeu de seus filhos?
Célia Diniz -Recebi duas cartas-mensagens do Rangel, através de Chico, a Mariana se foi em 2006.

JC - Antes de recebê-las, você já era espírita?
Célia - Eu já era espírita. Meu pai trabalhava na Fazenda Modelo junto com o Chico e fazia parte da diretoria do Centro Espírita Luiz Gonzaga, fundado pelo Chico em 1927, portanto fui criada numa família espírita.

JC - Quando recebeu a primeira, de quem era? Chegou a duvidar que fosse mesmo de seu (sua) filho(a)? Teve certeza da autoria de que maneira?
Célia - Eu conhecia a excelência da capacidade mediúnica do Chico e não duvidaria de nada. Mesmo assim as mensagens eram permeadas de tantas evidências, que não deixavam margem para incertezas. Traziam apelidos, nome de familiares, de amigos, da ajudante do lar, de parentes desencarnados dos quais nem nos lembrávamos ou sabíamos que existiam; situações do cotidiano familiar, tais como sentimentos mais íntimos, diálogos. Traziam ainda detalhes dos momentos finais do filhinho. Desnecessário dizer que o médium desconhecia tudo isto.

JC - As cartas trouxeram que tipo de sentimento, compreensão, a você? Ajudaram a superar momentos tão difíceis?
Célia - Indescritível as emoções do recebimento das cartas. Para mim, não havia o impacto da descoberta, muito comum nas mães não espíritas. Impacto este vindo da descoberta, naquele momento, que a morte não existe, que a vida continua e o amor nunca morre. Mesmo sabendo, de antes, de tudo isto, receber notícias, era como ter meu filho de volta*. Sensação de esperança e de paz, de confiança em Deus e otimismo, muito me ajudaram na superação de tão doloroso luto.

JC - Você tem notícia de onde seus filhos estão, no plano espiritual, e em que tipo de atividade estão envolvidos?
Célia -Tenho sim. O Rangel, sei que o período de 1983 até esta data foi muito bem aproveitado no seu crescimento espiritual e que hoje já é um rapaz, e ajudou na chegada e adaptação da Mariana. Sua rotina lá é de estudo e trabalho. Quanto à Mariana, ainda em fase de adaptação, estuda e já consegue trabalhar um pouco. Mensagens recebidas por Geraldinho Lemos e Wagner Gomes da Paixão, às quais também pude hipotecar toda credibilidade, fruto das evidências que elas continham e que igualmente, eram desconhecidas por eles, muito têm me ajudado a conviver com a saudade e com a dor da separação física.

JC - Você tem algum tipo de mediunidade?
Célia - De alguma forma, somos todos um pouco médiuns, conforme as constatações de Allan Kardec. Particularmente, sinto a ajuda do Plano Espiritual, em nossas tarefas na seara espírita em geral e principalmente durante as palestras.

JC - Como foi sua trajetória até se tornar diretora hoje do CE Luiz Gonzaga?
Célia - Bem, a minha mãe era a zeladora do Centro e, pequenininha ainda, me lembro de estar junto dela “atrapalhando” na limpeza. Mais tarde um pouco, participava das aulas de Evangelização Infantil que ela ministrava. Depois algum tempo, na Mocidade. Nesta época eu cuidava de uma pequena livraria interna do Centro e me encontrava sempre com o Chico, que participava ainda, umas duas vezes por ano, das reuniões, quando em visita a Pedro Leopoldo. Nos anos 70 veio a faculdade, as aulas de química, o casamento e três filhos em menos de três anos, enfim, pouco tempo para a doutrina. Em 1983, ao ver partir o Rangel, reduzi as aulas do turno da noite e premida por intensa necessidade, voltei para as atividades espíritas, incluindo mais dedicação aos estudos, que, na verdade nunca cessaram.  Com a aposentadoria em 1993, comecei a cuidar da Livraria, das campanhas para a reforma e restauração do prédio, etc. Quando a dengue levou a Mariana, em 2006, e com o casamento de Aguinaldinho, meu filho mais velho, intensificamos o trabalho. Idealizamos um memorial de nossa instituição. Ao resgatar a história do Luiz Gonzaga, resgatamos junto os primórdios das atividades mediúnicas do querido e inesquecível fundador. Hoje estamos vice-presidente da casa que me acolheu durante toda esta minha reencarnação e rendo graças a Deus, pela oportunidade do trabalho.

JC - O que tem a dizer às mães que hoje buscam notícias de seus queridos que voltaram antes delas?
Célia -Digo que as portas do mundo espiritual não se fecharam com a partida do querido medianeiro. Mas, que à falta de tão cristalino instrumento, há de se ter bastante critério na busca e na aceitação de notícias. O médium deve exercer o seu mister em total clima de desprendimento material e sem vaidades. Avaliar criteriosamente se as informações contidas nas cartas eram desconhecidas do médium e etc. Perguntar ao próprio coração se reconhece ali o familiar comunicante. Também, não podemos esquecer que “o telefone toca de lá para cá” e que sempre é possível nos consolar através da vastíssima literatura deixada por Chico Xavier sobre a realidade do além-túmulo.Ao conhecermos esta realidade, saberemos que nossos entes queridos estão amparados, mais do que nunca, pela misericórdia divina e que contam com a nossa força e equilíbrio para que se sintam fortes e equilibrados.

JC - Você chegou a acompanhar o trabalho de Chico em socorro a tantas mães? Como foi essa convivência?
Célia -Tive a oportunidade de estar em Uberaba muitas vezes e vi de perto estas atividades. Eram horas incríveis de muita aprendizagem. Nos deliciávamos naqueles ágapes de amor e luz e víamos que com mensagens ou sem elas, as mães recebiam do sublime seguidor de Jesus todo conforto e ajuda que buscavam. Quando nada mais podia ser feito ou dito, o Chico as abraçava e chorava junto. Impossível aquilatar as vibrações que emanavam dele em direção a corações despedaçados em mil partes. Parece-me que nesses encontros ele oferecia uma espécie de “colinha”, pois todas saíam de lá pacificadas, harmonizadas e esperançosas. Não era o médium, era Chico Xavier agindo, era o amor em ação.

JC - Há algo que Chico haja dito para você na ocasião, que lhe marcou para sempre?
Célia -Hoje, quando a saudade de sua presença física dói tanto, tudo que consigo lembrar do que ele me dizia me marcará para sempre. Mas vou deixar uma frase, que pode ser dita a qualquer pessoa que esteja vivenciando uma separação dolorosa: Olhe o sofrimento ao seu redor, ajude a outras pessoas que sofrem, talvez até mais, que um dia você poderá dizer: “Graças a Deus reencontrei meu filho!”.

* Destaque nosso.

FONTES
Texto: JCNet, Bauru (SP), 02/05/2011
Foto: ISTOÉ, 25/03/2011.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Zaranzas no além

Oi, gente!

Não sei, não.

Não posso escorropilar a cuca e botar banca dos craques de letras. Mas a pivetada quer dicas sobre os amigos da erva de início, da poeira maldita, da birita, das doenças do mundo e os cambaus, quando pintam por aqui nestas paróquias.

Não tenho condições para ser o pai da bola nestas palas, mas posso afirmar pra vocês que quando esses companheiros abotoam o paletó de madeira e largam a lata de pés juntos, ficam naquela dos calibrados, como quem não tomou conhecimento de que estão longe das garrafas e garangos.

Ficam zaranzas e birutas.

Partem logo pra idéia do escondido, porém, os majuras daqui não precisam de flagras. Os caras apresentam o miserê em que se acham por si mesmos.

Muito poucos aceitam a cana para tratamento. Quase todos se mandam pra Terra mesmo, esfomeados de sensação, junto dos homens, procurando gargantas fortes que os agüentem ou festinhas de embalo, nas quais se satisfazem ao contato de quantos preferem ignorar o lesco-lesco da vida, em que a gente pode achar as melhoradas de que necessita. E ligando os próprios canudos nos canudos daqueles que estão fora da onda, vão levando a nuvem pra frente. E a onda quadrada vai aumentando ... Em que tamanho será o estouro da maré, só Deus sabe. O que se vê e o que se nota é que os chapas engrossam a fila dos freqüentadores das bocas-fáceis e das praças de sangue quente, em caminhos dos quais é muito difícil voltar, a não ser quando os Espíritos da Lei os colocam de recueta na marra da reencarnação.

Vocês, meninada, não fiquem nisso.

Essas frias não valem.

É muito melhor viverem agarrados na pedreira dos compromissos, agüentando galhos e sarrafos, ainda que terminem esbolachados pela pancadaria legal do serviço.

A morte é apenas um sono fajuto e se vocês puderem crer no que digo, acordem a tempo para que o tempo não os acorde à força, pra retirá-los de loucuras e pesadelos.

O negócio melhor é agüentar as pontas da vida como essas pontas vierem, sem perder a esportiva e fiquem certos disso: a viverem ameaçados de cair na boca do leão, é muito mais fácil e muito melhor permanecermos por fora das patotas, alimentadas de folhas mágicas, buscando sempre e cada vez mais a turma do amigão Jesus Cristo.

Falei.


XAVIER, Francisco Candido. Falou e disse [Espírito Augusto Cezar Netto]. São Bernardo do Campo, SP: GEEM, 1978. p. 73-77.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

As mães de Chico Xavier

Elas perderam seus filhos de forma trágica, buscaram consolo nas cartas psicografadas pelo médium mineiro e mudaram o curso de suas vidas depois desse encontro

Rodrigo Cardoso e João Loes











Certa vez, o carioca Chico Buarque de Holanda debruçou-se sobre um papel e rabiscou “Pedaço de Mim” (1978). Dizia a letra da canção: “Ó metade de mim / Ó metade arrancada de mim / Leva o seu olhar / Que a saudade é o pior tormento / Que a saudade é o revés de um parto / A saudade é arrumar o quarto / Do filho que já morreu.” Só mesmo um poeta para verbalizar de maneira precisa o que uma mãe sente quando enterra um filho. Um outro Chico, de sobrenome Xavier – nascido Francisco Cândido Xavier (1910 – 2002), em Pedro Leopoldo, Minas Gerais –, passou a vida confortando mães, pais, avós, enfim, pessoas que perderam entes queridos. E o fazia afirmando, também por meio de rabiscos a lápis em folhas em branco, a continuidade da vida além do corpo em um outro plano, o espiritual. Com o seu trabalho psicográfico, o médium Chico Xavier patrocinou mudanças na vida de milhares de brasileiros. Além de consolar, despertava as pessoas para a dor alheia e as ensinava a trocar o luto desesperador pelo cuidado com aqueles que, ao redor, sofriam tanto quanto ou mais do que elas.


“O Chico me tirou de um pesadelo“
“Querido papai Wilson e querida mamãe Chiquinha”, riscou Chico Xavier em letras grandes e arredondadas. Era sexta-feira, 18 de outubro de 1980. A carta, mais uma das psicografias feitas pelo médium naquele dia, seria lida mais tarde pelo próprio Chico para êxtase de Francisca Ruiz Dellalio e Wilson Dellalio, pais de Eduardo Ruiz Dellalio, morto quatro meses antes, aos 18 anos, em um acidente de moto a quatro quadras de sua casa, no bairro do Tatuapé, em São Paulo. Era o primeiro texto que recebiam. “Estava pensando em férias sem qualquer sombra nas ideias, quando o choque me surpreendeu”, continuou a carta, que coincidia com o que os pais vinham conversando com o filho na época do acidente.

Eduardo era mais do que o único filho de dona Chiquinha e seu Wilson. Das dez gestações de Francisca, cinco resultaram em aborto, duas em crianças natimortas, uma em um menino que morreu com uma semana de vida e a outra em uma menina, Kátia, que faleceu com pouco mais de um ano. “Até receber a primeira mensagem do Eduardo, simplesmente não vivia”, lembra Chiquinha, que costumava acordar de madrugada e correr, aos prantos, para cheirar as roupas do filho no armário. “O Chico me tirou de um pesadelo”, atesta. “Ele foi a minha salvação.” Do homem que lhe deu conforto com 22 mensagens e quase 300 páginas de texto psicografado, Chiquinha, hoje com 69 anos, guarda lembranças dignas de uma devota que conheceu seu Deus. “Perto dele você não sentia o chão. Me segurava em cada palavra que ele dizia.” Uma carta em especial tocou fundo Francisca. Na mensagem de número sete, o filho repetiu uma expressão comum apenas entre eles. “Esticar minhas andanças” era o que Eduardo dizia quando queria um complemento da semanada dada pelo pai para que pudesse passear mais com os amigos nos finais de semana. “Nem o pai sabia disso, só eu e ele”, diz, emocionada. “Ainda sinto o cheiro do perfume dele pela casa”, lembra.

As cartas que Chico psicografou a familiares durante sua trajetória mediúnica, iniciada em 1927, aos 17 anos, são um dos legados mais marcantes do maior líder espírita da história do Brasil. Por meio delas, pessoas já falecidas teriam estabelecido contato com aquelas que, aqui, morriam de saudade. Em 2 de abril se encerram as comemorações do centenário de nascimento do médium mineiro. Um dia antes, entra em cartaz “As Mães de Chico Xavier”, dos diretores Glauber Filho e Halder Gomes, que retrata o sofrimento de duas mães que perderam seus filhos e de uma que, ainda grávida, tem o pai de sua filha morto em um assalto. Mais do que esses relatos inspirados em histórias reais e no livro “Por Trás do Véu de Ísis” (Ed. Planeta), de Marcel Souto Maior, o filme é feliz ao retratar como as mulheres passam a reagir melhor às perdas e, desse modo, a levar uma vida mais normal, depois que recebem, por meio do médium, mensagens vindas do plano espiritual (leia texto sobre o filme na pág. 75).


“Meu desafio é não morrer de tristeza“
Quem vê a professora aposentada Célia Diniz, 60 anos, falar e agitar-se sem esconder o sorriso ou deixar o cansaço dar as caras não imagina a quantidade de reveses que ela encarou. Casada há 35 anos, Célia foi mãe, nessa ordem, de Agnaldo, Mariana e Rangel em um intervalo de três anos, entre os 27 e os 30 anos. Em 1983, presenciou a morte do caçula, então com três anos. Há cinco, enterrou a única filha, aos 27. Rangel sucumbiu depois de cair da bicicleta e bater a cabeça. Mariana, de dengue hemorrágica. Os pais de Célia, Lico e Lia, foram amigos de Chico Xavier e presidiram o Centro Espírita Luiz Gonzaga, fundado pelo médium em Pedro Leopoldo (MG). Hoje, é a professora aposentada quem ocupa esse posto. Espírita de berço, Célia foi moldada pela doutrina. Mas a dor também machuca as mães espíritas. “Quando chegou a minha vez, lembro de estar passando a mão na testa e no cabelinho de Rangel, já no caixão, e perguntar para a minha mãe como ela tinha dado conta disso oito vezes (a mãe de Célia perdeu oito dos 18 filhos)”, conta ela, que ouviu de Lia que a filha só daria conta se segurasse na mão de Nossa Senhora. “Não foram as palavras da minha mãe que me confortaram, mas a vida dela depois das perdas. Ela era uma mulher feliz, pacificada, carinhosa...”

É a esperança de um reencontro com os filhos que joga Célia para a frente – Rangel, um ano após falecer, comunicou-se com ela e os familiares em uma carta psicografada por Chico. Ser a melhor pessoa possível para merecer essa bênção a faz dar palestras e ser atuante em casa e no centro Luiz Gonzaga.

“A maior dor de uma mãe é quando o sofrimento do filho não passa mais com um beijinho. Após a morte de Mariana, meu desafio é não morrer de tristeza.” E Célia demonstra que , com a força da fé, a normalidade e a felicidade pontuam a sua rotina.

É ponto pacífico entre leigos e especialistas: o luto de uma mãe que perdeu o filho é o mais difícil de ser enfrentado. “É o vínculo mais forte que existe”, afirma Vera Lúcia Dias, mestre em psicologia clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), terapeuta das perdas e do luto, além de autora da tese de mestrado “Mensagens Psicografadas e Luto” (PUC-SP, 2002) e do livro “Quando a Morte nos Visita – Uma Leitura Psicológica dos Processos de Luto e da Busca por Mensagens Psicografadas”, a ser lançado em junho de 2011. Mineira de Uberaba, a psicóloga assistiu durante anos ao fenômeno das mães que buscavam as cartas de Chico Xavier em sua cidade. “As senhoras que ouvi para minha tese diziam que vinham buscar notícias dos filhos”, conta. Em sua pesquisa qualitativa, todas elas foram unânimes em dizer que receber as mensagens trouxe conforto e alívio. “Uma mãe que perde um filho se faz muitas perguntas – onde ele está, se está bem, etc. E as psicografias dão um certo conforto nesse sentido”, afirma.

Essa atividade consoladora de Chico passou a ser reconhecida nacionalmente quando o médium vivia em Uberaba, para onde se mudou em 1959, aos 49 anos. Foi em 1972, depois de participar do programa de televisão “Pinga Fogo”, que ele assistiu a uma caravana de brasileiros baterem à sua porta à procura da certeza de que pessoas queridas seguiam vivendo após a morte. Psicografar cartas, porém, era uma prática que o acompanhava desde os anos 30, ainda em Pedro Leopoldo. Com 17 anos, o mineiro psicografaria a primeira mensagem, assinada por um espírito amigo. Nesse mesmo dia, receberia uma carta assinada pela própria mãe, Maria de São João de Deus, que havia morrido quando ele tinha 5 anos. Segundo a médica Marlene Nobre, presidente da Associação Médico-Espírita do Brasil (AME-BR), a psicografia de Chico era inconsciente. É como se ele se doasse por inteiro para que o espírito comunicante falasse por si com total individualidade. Coautora com Paulo Rossi Severino e a equipe da AME-SP de “A Vida Triunfa”, que analisa a natureza da mediunidade do mineiro, Marlene explica que Emmanuel, o guia espiritual de Chico, funcionava com uma espécie de filtro e selecionava os espíritos que estivessem preparados para passar uma mensagem positiva. “Ele escolhia aqueles prontos para fazer recomendações, como a de ajudar os mais carentes”, diz. “O espírito do filho trabalharia junto aos pais nessa missão caritativa. Ajudar, portanto, era uma forma também de os pais se aproximarem do filho que partiu.” De fato, no conteúdo das mensagens sempre havia o chamado para que se cuidasse da dor do próximo.


“O Chico é tudo na minha vida“
“Desde menina achava que morreria aos 42 anos”, conta Lucy Ianez da Silva, hoje com 80 anos. “Não morri”, diz. “Mas perdi meu filho aos 42.” José Roberto Pereira da Silva, primogênito de Lucy, morreu no dia 8 de junho de 1972, aos 18 anos, em um acidente de trem entre Mogi das Cruzes e São Paulo. O jovem, que morava com a família na capital, escolheu estudar medicina na cidade vizinha justamente pela necessidade da viagem de trem, de que ele tanto gostava. “Desde criança, antes de carrinho e de bola, a preferência do José Roberto era o trem de ferro”, diz Lucy. Quis o destino que ele morresse dentro de um.

Meses depois do acidente, o pai do garoto, que abandonara o trabalho, ia três vezes por dia ao cemitério, enquanto Lucy tentava se recuperar do irrecuperável na casa da mãe. “Fui criada no seio católico: morreu, purgatório, céu, inferno, essas coisas”, enumera. “Não tinha alento.” No auge de seu desespero, uma amiga a convenceu a ir até Uberaba. Nas duas primeiras visitas não veio nada, mas na terceira tudo mudou. “Mãezinha, o que se perdeu foi o retrato que um dia, em verdade, deveria desaparecer”, dizia José Roberto na primeira carta que mandou, em 29 de setembro de 1973. Outras 20 seguiriam. “Não queira morrer para reencontrar-me porque eu prossigo vivendo. Estamos juntos, só que de outra forma”, reiterou. Lucy voltou a sorrir, continuou retornando a Uberaba por duas décadas atrás de notícias do filho e sempre foi atendida.

“O Chico é tudo na minha vida”, diz ela. “Nunca vi alguém como ele e nunca verei mais.” A católica Lucy passou a frequentar centros espíritas com afinco e a trabalhar nas obras sociais ligadas à religião, tanto em São Paulo quanto em Minas Gerais. No começo da década de 90, parou de visitar Uberaba.

“A gente já tinha tanto, não queria pegar o lugar de mães que iam sempre e nunca recebiam nada.” Hoje, a saudade que mareja os olhos azuis de Lucy não é mais só do filho e do marido, que já morreu – ela inclui Chico Xavier.

Ampliar o conceito de família, passando a cuidar de outros filhos, de pessoas que não eram sangue de seu sangue, é o que une a trajetória das mães que receberam mensagens de seus filhos por meio de cartas psicografadas por Chico Xavier. “Só há uma maneira de sair inteiro de uma tragédia como a nossa: esquecer um pouco de si e tentar fazer a vida ao redor ser um pouco melhor. A energia que recebo das pessoas que ajudo me alimenta”, conta a professora mineira aposentada Célia Diniz, 60 anos, que perdeu dois filhos e cuja história inspirou uma das personagens no filme “As Mães de Chico Xavier” (leia o perfil dela e de outras mães ao longo desta reportagem). Coordenadora do laboratório de estudo sobre o luto da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Maria Helena Franco reconhece o uso das mensagens psicografadas como uma maneira de viver o luto. “Se tem sentido para elas, é digno de estudo para nós”, afirma. Mas a preocupação nunca será a de descobrir se as mensagens são ou não verdadeiras. “O que nos impele a estudar o fenômeno são as motivações das pessoas que vão até os centros espíritas atrás de mensagens psicografadas.”

“O que me ajudou a continuar vivendo foi o Chico“
Quando Shirley Rodrigues recebeu a notícia de que seu filho, Sidney, havia cometido suicídio enquanto dava plantão no quartel da Aeronáutica no qual servia, em São Paulo, não acreditou. Segundo ela, o menino de 18 anos não teria razões para isso. “Além da dor da morte, fiquei com a dor da dúvida”, lembra ela, na época com 40 anos e hoje com 74. Católica, Shirley resistiu aos primeiros convites de uma amiga para visitar Chico Xavier, mas, no desespero, acabou aceitando. “Lá, descobri que só de estar ao lado dele me sentia viva de novo”, diz ela, que visitou Uberaba seis vezes antes de receber a primeira mensagem de Sidney, 19 meses depois daquela quinta-feira, 2 de dezembro de 1976, quando ele morreu. “Não cometi suicídio”, garantia o texto, que descrevia o tiro que matou Sidney como acidental. A foto do filho, estampada em uma medalha no peito da mãe, se mexe com o soluçar de Shirley, que chora sempre que lê as cartas.

O garoto disse que lustrava a arma quando ela escapou de sua mão, caiu no chão e disparou. O projétil ricocheteou até acertar a base de seu crânio, do lado esquerdo. No texto ele pedia, ainda, para que os pais assinassem os laudos oficiais, mesmo que apontassem suicídio, e assim encerrassem o assunto. “Feito isso espero retornar-me à tranquilidade de que necessito”, dizia Sid, como era chamado, do além.

Assim foi feito, em nome da tranquilidade do filho e da família. Mas, apesar de querer acreditar, Shirley ainda tinha dúvidas quanto ao que ouviu de Chico. “Eu pensava que ele dizia essas coisas para me confortar”, conta. A segunda carta, segundo ela, acabou com as dúvidas ao citar o nome de familiares já mortos que estariam guiando Sid no além. “O que me ajudou a continuar vivendo foi o espiritismo e o Chico”, garante Shirley. “Sem isto não teria aguentado.”

A mãe diz sentir a presença do filho de quando em quando, mas lamenta nunca ter tido a oportunidade de vê-lo, como outras já viram. “Acho que não devo estar pronta”, lamenta.

Até os anos 90, Chico Xavier demonstrava uma disposição impressionante nas reuniões públicas de psicografia do Grupo Espírita da Prece, que ele fundou em Uberaba. As sessões ocorriam nas noites de sexta-feira e sábado e eram presenciadas por cerca de 500 pessoas – sentadas, debruçadas na janela e em pé ao redor da casa. Os trabalhos tinham início com a leitura de trechos do “Livro dos Espíritos” e do “Evangelho Segundo o Espiritismo”, do criador da doutrina espírita, Allan Kardec. A psicografia começava às 20h e seguia até as 4h. Chico colocava no papel cerca de dez mensagens por dia – algumas de até 70 páginas, segundo Nobre, da AME–BR. “Ele fazia questão de ler carta por carta e entregá-las aos familiares. Ao final da sessão, ainda contava causos, abraçava as pessoas e fazia graça com o próprio sofrimento”, conta o empresário Geraldo Lemos Neto, 49 anos, amigo que auxiliou Chico em suas reuniões entre 1985 e 1991. Segundo Neto, que hoje administra a Casa de Chico, um centro de referência sobre a vida do médium mineiro em Pedro Leopoldo. Todo ano o líder espírita fazia questão de psicografar uma mensagem endereçada às mulheres no Dia das Mães. Sabia que, às mães, reconhecer um filho em suas cartas era acreditar de uma vez por todas que a vida continua, que o amor segue existindo, mas a morte não. Ao proporcionar a elas a alegria de ter o filho de volta pela psicografia, o mineiro injetava poesia no coração das mulheres, tal como seu xará carioca, de sobrenome Buarque.

“Ele ajudou, mas minha vida perdeu a cor“
“Não fui atrás de uma mensagem, minha esperança era entrar no centro e reencontrar meu filho”, admite a paulistana Neusa Collis, 69 anos, sobre a motivação da viagem a Uberaba no final de 1984. Em outubro, seu primogênito, Antônio Martinez Collis, então com 24 anos, foi assassinado durante um assalto. Nos meses que se seguiram, ela emagreceu 30 quilos, mal saía do quarto e se recusava a ver a luz do dia. “Eu estava revoltada com Deus”, resume Neusa, que era católica e hoje é espírita.

No primeiro encontro com Chico Xavier, Neusa não recebeu mensagem do filho. Mas ela insistiu. Lembrava que, uma semana antes de morrer, Antônio havia contado que sentia sua morte se avizinhar. Seria sinal de maturidade espiritual? Talvez. A confirmação viria quatro meses depois, em fevereiro de 1985, quando o filho se comunicou através do médium de Uberaba. “Você é a rosa da minha vida”, leu Chico Xavier, em carta endereçada à Neusa. Naquele momento, a mãe teve certeza de que a mensagem era dele. “Quando ainda era vivo, escolhi uma rosa e disse para mim mesma que ela o representaria”, lembra. Era muito mais prova do que ela precisava para legitimar o contato, que se estendeu por mais alguns recados psicografados por outros médiuns, na época único alento para a dor que sentia.

Hoje Neusa já não lê mais as cartas do filho – a lembrança machuca mais do que conforta. Sai pouco do apartamento onde vive, a algumas quadras de onde Antônio foi morto, diz ter perdido a vaidade, embora continue uma senhora distinta e cuidada, e não consegue cantar parabéns nem nas festas dos netos.“O espiritismo foi o único lugar onde tive respostas”, afirma. “Ajudou, mas minha vida perdeu a cor”, resigna-se, observando um porta-retratos com a imagem do filho. “Um dia nos reencontraremos”, diz, convicta.



















FONTE: ISTOÉ, 25/03/2011.