Entrevista com Cintia Alves da Silva, autora do livro As cartas de Chico Xavier: uma análise semiótica, obra que integra a coleção da Propg Digital da Editora Unesp com o selo Cultura Acadêmica.
terça-feira, 9 de abril de 2013
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
Chico Xavier e Semiótica: Dissertação de mestrado estuda cartas psicografadas com embasamento científico
Doutoranda e mestra em Linguística e Língua Portuguesa pela Faculdade de
Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita
Filho” (UNESP), campus de Araraquara (SP), Cíntia Alves da Silva é
autora de uma importante dissertação que une ciência e religião: As
cartas de Chico Xavier: uma análise semiótica. Seu objeto de estudo – as
cartas psicografadas pelo médium mineiro – envolve uma análise
criteriosa do processo de construção dos autores espirituais, com base
na coerência dos fatos relatados. Atualmente, dedica-se à tese de
doutorado intitulada A prática da psicografia: enunciação e memória em
relatos de experiência mediúnica, um estudo mais amplo da psicografia
como prática semiótica.
RIE – Como você se aproximou do Espiritismo e de que forma surgiu o interesse de defender uma dissertação de mestrado relacionada à religião?
Cíntia Alves da Silva – O meu primeiro contato com o Espiritismo se deu quando eu ainda era adolescente, aos 14 anos. Após receber de presente um volume de O Evangelho Segundo o Espiritismo, passei a me interessar pela doutrina e nunca mais parei de ler a respeito. Vinculei-me à Casa do Caminho, Instituição Espírita Cristã, de São Carlos (SP), no ano de 2008, quando cursei o COEM (Curso de Orientação e Educação Mediúnica). Desde então, a psicografia tornou-se o meu tema predileto. Nesse mesmo ano tive contato com um recorte de jornal que falava sobre a existência da AJE-SP (Associação Jurídico-Espírita do Estado de São Paulo), que à época discutia a possibilidade de se utilizar cartas psicografadas como meio de prova nos tribunais. Foi a partir desse recorte que comecei a buscar e organizar informações sobre os casos que envolviam a escrita mediúnica de Chico Xavier. O que era um hobby, inicialmente, tornou-se tema da minha pesquisa entre 2009 e 2010, quando ingressei no mestrado em Linguística e Língua Portuguesa na UNESP de Araraquara, sob a orientação do Prof. Dr. Jean Cristtus Portela. A importância sociocultural e editorial da psicografia no Brasil foi, sem dúvida, o principal motivo que me levou a considerar o estudo acadêmico desse tema.
RIE – Explique brevemente o objetivo da dissertação e a relação entre psicografia e semiótica.
Cíntia – A dissertação intitula-se As cartas de Chico Xavier: uma análise semiótica e seu objetivo principal foi o de compreender o processo de construção das autorias espirituais (ou “imagens” de enunciador) nas cartas “familiares” ou “consoladoras” escritas pelo médium. Os objetivos específicos incluíram observar se havia coerência na construção das autorias espirituais na obra psicográfica epistolar de Chico Xavier, ao longo de períodos maiores ou menores, e em que medida elas apresentariam marcas de autonomia ou individualidade que nos permitissem distingui-las umas das outras. Essas questões foram elaboradas de forma que pudéssemos refletir sobre uma ideia bastante comum entre os adeptos do Espiritismo – a de que a escrita do médium era tão fiel ao estilo dos espíritos que se comunicavam através dele, que seria possível identificar e distinguir claramente os seus autores espirituais por meio das expressões e formas de dizer que estes supostamente teriam utilizado quando vivos. A pesquisa também buscou caracterizar as cartas psicográficas como um tipo particular de texto, que se diferencia dos textos epistolares “típicos”. Além de se configurar como um gênero específico, as cartas psicografadas delineiam um percurso editorial bastante peculiar, que possibilita que elas sejam lidas e compreendidas em outros contextos, para além do centro espírita, onde é produzida. A Semiótica, concebida enquanto teoria da significação, propõe-se a explicitar conceitualmente os processos de apreensão e produção de sentido. Por essa razão, a sua escolha como perspectiva teórica nos pareceu bastante apropriada, uma vez que as nossas questões acerca da psicografia epistolar inseriam-se justamente na busca pela compreensão dos processos de construção das “identidades” espirituais a que Chico Xavier atribuía a sua escrita.
RIE – Como você se aproximou do Espiritismo e de que forma surgiu o interesse de defender uma dissertação de mestrado relacionada à religião?
Cíntia Alves da Silva – O meu primeiro contato com o Espiritismo se deu quando eu ainda era adolescente, aos 14 anos. Após receber de presente um volume de O Evangelho Segundo o Espiritismo, passei a me interessar pela doutrina e nunca mais parei de ler a respeito. Vinculei-me à Casa do Caminho, Instituição Espírita Cristã, de São Carlos (SP), no ano de 2008, quando cursei o COEM (Curso de Orientação e Educação Mediúnica). Desde então, a psicografia tornou-se o meu tema predileto. Nesse mesmo ano tive contato com um recorte de jornal que falava sobre a existência da AJE-SP (Associação Jurídico-Espírita do Estado de São Paulo), que à época discutia a possibilidade de se utilizar cartas psicografadas como meio de prova nos tribunais. Foi a partir desse recorte que comecei a buscar e organizar informações sobre os casos que envolviam a escrita mediúnica de Chico Xavier. O que era um hobby, inicialmente, tornou-se tema da minha pesquisa entre 2009 e 2010, quando ingressei no mestrado em Linguística e Língua Portuguesa na UNESP de Araraquara, sob a orientação do Prof. Dr. Jean Cristtus Portela. A importância sociocultural e editorial da psicografia no Brasil foi, sem dúvida, o principal motivo que me levou a considerar o estudo acadêmico desse tema.
RIE – Explique brevemente o objetivo da dissertação e a relação entre psicografia e semiótica.
Cíntia – A dissertação intitula-se As cartas de Chico Xavier: uma análise semiótica e seu objetivo principal foi o de compreender o processo de construção das autorias espirituais (ou “imagens” de enunciador) nas cartas “familiares” ou “consoladoras” escritas pelo médium. Os objetivos específicos incluíram observar se havia coerência na construção das autorias espirituais na obra psicográfica epistolar de Chico Xavier, ao longo de períodos maiores ou menores, e em que medida elas apresentariam marcas de autonomia ou individualidade que nos permitissem distingui-las umas das outras. Essas questões foram elaboradas de forma que pudéssemos refletir sobre uma ideia bastante comum entre os adeptos do Espiritismo – a de que a escrita do médium era tão fiel ao estilo dos espíritos que se comunicavam através dele, que seria possível identificar e distinguir claramente os seus autores espirituais por meio das expressões e formas de dizer que estes supostamente teriam utilizado quando vivos. A pesquisa também buscou caracterizar as cartas psicográficas como um tipo particular de texto, que se diferencia dos textos epistolares “típicos”. Além de se configurar como um gênero específico, as cartas psicografadas delineiam um percurso editorial bastante peculiar, que possibilita que elas sejam lidas e compreendidas em outros contextos, para além do centro espírita, onde é produzida. A Semiótica, concebida enquanto teoria da significação, propõe-se a explicitar conceitualmente os processos de apreensão e produção de sentido. Por essa razão, a sua escolha como perspectiva teórica nos pareceu bastante apropriada, uma vez que as nossas questões acerca da psicografia epistolar inseriam-se justamente na busca pela compreensão dos processos de construção das “identidades” espirituais a que Chico Xavier atribuía a sua escrita.
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
A primeira carta de Augusto César Netto (03/02/1973)
Minha mãe, minha querida mamãe!
Primeiro, um pensamento de gratidão a Deus pelas bênçãos recebidas sempre.
Aqui não é muito diferente daí, embora seja diferente daqui. Explicar como é isso não sei ainda. Falo assim para dizer que tenho estado nas disciplinas necessárias. Tratamento intensivo a princípio, refazimento, escola e trabalho depois.
Que eu tenha desejado escrever com uma ansiedade igual à sua, não duvide. Mas não é fácil. Creia, porém, que lá no reduto abençoado de serviço da nossa Acácia, tenho estado presente sempre e sempre. Estou agindo. Seu filho já consegue fazer alguma cousa. Não é muito não, como não pode deixar de ser. Sou ainda um estudante nas primeiras faixas do ensino. Nem sei dizer como tudo vai sucedendo.
Parece, mamãe, que a vida é como um rio. As águas do tempo nos levam para diante e a gente vai seguindo, fazendo o que pode para não submergir e trabalhar de algum modo na viagem. Será que esta imagem me ocorreu, por lembrar aquele dia? Aquele dia que nós não queremos lembrar? Sei hoje apenas que, se a minha prova, ao partir, foi o desfalecimento na água, nós já derramamos muitas lágrimas para esquecer tudo o que deve ser esquecido...
Graças a Deus, vejo-a firme e valorosa, vivendo e servindo. Não avalia o que foram para mim os primeiros tempos... As suas aflições e as suas angústias. Suas palavras de pergunta e de dor buscando saber a razão do que acontecera me feriam profundamente, porque eu desejava explicar sem conseguir expressar-me.
Se o seu coração querido se colocar em lugar do meu, saberá como doíam aquele pranto e aquelas orações sentidas que recebia de seu carinho, ante o meu retrato e à frente do lugar onde as últimas lembranças ficaram entre nós. Não julgue que eu não ouvia. Chorei com as suas lágrimas, por muito tempo, e quando as suas primeiras esperanças vieram surgindo na alma, aceitando realmente a vida além da morte, a luz nascente em seu amor foi também minha luz. Agradeço hoje por tudo.
Não estou triste ao falar assim, mas é muito importante para mim exprimir agora o que sinto, com a possível demonstração de meus impulsos mais íntimos.
Agradeço o seu esforço para sairmos de nós mesmos ao encontro da fé; agradeço a sua obediência a Deus, procurando resignar-se com o problema que me assaltou quando eu menos esperava; agradeço a fortaleza que o seu carinho nos deu a todos; conquanto, às vezes, fugindo para a solidão do quarto, depois de muitas das nossas reuniões de família, para chorarmos a sós; agradeço o seu apoio valioso a meu pai e, sobretudo, a paz que hoje ilumina o coração de seu filho.
Peço-lhe. Continuemos trabalhando, plantando o bem... Aqui, Mãezinha, o que trazemos, é o que permanece conosco. E estejamos alegres. A vida é segurança e felicidade, trabalho e progresso para nós todos, conforme as leis de Deus. O sofrimento é semelhante à lagarta destruidora que, com invigilância, colocamos na flor da vida. Felizmente, ao ver o seu coração mais tranqüilo, pude asserenar-me e realmente reformar-me para viver.
Cada criança que a sua bondade ampara sou eu mesmo; cada peça de socorro aos necessitados que sai de suas mãos é bênção sobre mim. E aprendamos a esquecer todas as sombras que, porventura, hajam caído entre nós e a Vida - a Vida que é luz de Deus.
O trabalho crescerá para nós. Estou em seus braços, aprendendo a servir e estou em seu pensamento, conversando sobre os melhores caminhos que nos cabem seguir. Compreender, mamãe querida, e auxiliar sempre para o bem.
Seu apoio a meu pai, o nosso companheiro devotado de sempre, é para mim confiança e alegria. Às vezes, pensamos que seria melhor eu ter ficado para colaborar de algum modo nas tarefas que o Senhor nos deu a cumprir; entretanto, sabe Deus o que faz e vim mais cedo, para cooperar na construção de nosso futuro. A vida, mãezinha, é também uma espécie de livro em que lemos, a pouco e pouco, as circunstâncias em que nos encontramos enlaçados.
Somos hoje uma família maior. A princípio, quase quatro fevereiros de retaguarda, supúnhamos ser um grupo único, em nosso bairro feliz de São Paulo. Depois, de semana a semana, fomos descobrindo que somos muitos. Hoje, costumo rir de mim mesmo. Fantasiava escrever uma carta, revelando detalhes de casa e família, mas antes que eu pudesse grafar o que pensava, eis que o Chico veio a nós. Temos tudo em comum. Os conhecimentos do lar e os entes amados. Não consegui transitar nos fenômenos para reconhecer que o maior fenômeno é este profundo amor que nos reúne uns aos outros. Mesmo assim, envio lembranças às meninas e a todos - todos os nossos, desejando que a paz e a bênção de Deus estejam conosco em todos os passos. Aqui estão comigo vários companheiros e benfeitores.
Que ainda estou sendo auxiliado para escrever, não tenha dúvida. Não consigo relacionar os nomes de todos, porque a lista é grande, mas de amigos presentes destaco o amigo Salathiel e o amigo Oswaldo com parentes aqui e que se fazem sentir com muito carinho às nossas irmãs. Não sei ainda ser mensageiro, embora aqui me encontre firme nesta mensagem. Começamos bem neste mês de aniversário e espero, querida mamãe, estarmos sempre mais juntos.
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