sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Testemunhos do outro mundo: entrevista com o juiz Orimar de Bastos

Por Maria Luisa Barros

Rio - Testemunhos do outro mundo marcaram para sempre a vida de um juiz e mudaram o destino de três homens acusados de assassinato. Mensagens do além psicografadas por Chico Xavier, no fim dos anos 70, e assinadas por vítimas de crimes violentos, ajudaram a livrar da cadeia José Divino Nunes, João Batista França e João de Deus. Os dois primeiros réus foram inocentados pelo juiz de Goiânia Orimar de Bastos, hoje com 73 anos.
Em entrevista a O DIA, o magistrado conta por que aceitou as cartas do médium como provas legais no julgamento da morte de Maurício Garcez Henrique e Henrique Emmanuel Gregoris, ambos jovens de Goiânia. A terceira carta absolveu João de Deus, acusado na época de matar a tiros a mulher, Gleide Maria Dutra, ex-miss Campo Grande. Sem testemunhas, os três rapazes respondiam por homicídio doloso e poderiam pegar até 30 anos de reclusão. Mas a suposta comunicação entre vivos e mortos deu liberdade aos réus — e escandalizou o País.


TerraTV - Notícias - O Dia: Réus absolvidos por mensagem do além


Antes da decisão que livrou José Divino, outro caso já havia chamado a atenção. O juiz Orimar foi designado para atuar no julgamento de Henrique Emmanuel, morto numa roleta-russa com o amigo João Batista França. “Não me lembro de ter escrito a sentença. Parecia não ser eu”, recorda o juiz, que teria psicografado o veredicto.

No dia seguinte, a mãe do jovem morto recebe a visita de Chico Xavier, que leva carta psicografada do filho: “Avise a mamãe para suspender o processo contra João França. Ele é inocente e essa história tem prejudicado o meu crescimento”.
O segundo caso, que aparecerá no filme sobre a vida do médium, repercutiu até no exterior. Os pais de Maurício, Dejanira e José Henrique, recebem carta do filho e decidem perdoar Divino. Era a primeira vez que um magistrado aceitava o testemunho de um morto para chegar a um veredicto. “Os próprios pais cederam a carta para o advogado de defesa. Elas foram de grande ajuda, porque não existia outra prova nos autos.
E não houve contradição entre as alegações do réu e da vítima psicografada. Tudo casava perfeitamente”, conta o juiz Orimar, que é católico até hoje. Em março de 1980, o bancário João de Deus foi acusado de homicídio pela morte da mulher, Gleide, com um tiro no pescoço. Na mensagem, Gleide o inocentou, afirmando que o tiro fora acidental. O julgamento foi anulado pela promotoria, sob a alegação de que a prova espiritual usada pela defesa teria influenciado os sete jurados. Novo julgamento foi marcado, e novamente as cartas de Chico foram a favor do réu. A decisão revoltou a família de Gleide, que acusava o exmarido de ter atirado intencionalmente.


Após júri, juiz soube por Chico que o seu caminho até Goiânia já estava traçado

Três meses após a polêmica sentença, o juiz Orimar ficou frente a frente pela primeira vez com Chico Xavier, numa visita ao médium em Uberaba. No encontro, mais uma surpresa. Chico psicografou na hora carta do juiz já falecido Adalberto Pereira da Silva. Nela, o magistrado diz que forças espirituais agiram para que o julgamento de Maurício Henrique fosse parar nas mãos do juiz Orimar. “Meu prezado Orimar: não estranhe o posicionamento a que você se viu conduzido pelas circunstâncias. Quando forças inabordáveis determinaram a sua transferência para Goiânia, de ‘nosso lado’, o julgamento do jovem Maurício estava previsto”, diz um trecho da carta.
No meio da conversa, Chico perguntou ao juiz Orimar quem era Hugo Argenta. Sua esposa, que o acompanhava, respondeu que era o pai dela. Chico ainda citou Chiquinho Perillo, Chiquinho Cruz e Lourenço. Por ter o mesmo nome, os primos da sogra de Orimar eram chamados pelo sobrenome, e Lourenço foi um tio-avô do juiz que morrera assassinado em Goiás, acusado injustamente de ter ‘deflorado’ uma moça. “Fiquei chocado com tantos detalhes que Chico desconhecia”, conta Orimar.



“Fui questionado demais, mas nunca me arrependi”
“Na mensagem de Chico, Maurício contava o que tinha acontecido e isentava de culpa o acusado. As informações se encaixavam perfeitamente com as declarações dadas pelo réu, José Divino, de que havia sido uma brincadeira e que o revólver disparara sem querer. Não havia culpa nem dolo no disparo feito por Divino. Depois que dei a sentença, fui questionado demais. Quando me viam, as pessoas comentavam: ‘Lá vai o juiz do além! Que dia o senhor vai baixar no centro para dar outra sentença?’. Convivi com isso todo o tempo. Mas nunca me arrependi da minha decisão. Até hoje tenho a consciência tranquila de que fiz a coisa certa”

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