quarta-feira, 29 de agosto de 2012

A primeira carta de Augusto César Netto (03/02/1973)


Minha mãe, minha querida mamãe!
Primeiro, um pensamento de gratidão a Deus pelas bênçãos recebidas sempre.
Aqui não é muito diferente daí, embora seja diferente daqui. Explicar como é isso não sei ainda. Falo assim para dizer que tenho estado nas disciplinas necessárias. Tratamento intensivo a princípio, refazimento, escola e trabalho depois.
Que eu tenha desejado escrever com uma ansiedade igual à sua, não duvide. Mas não é fácil. Creia, porém, que lá no reduto abençoado de serviço da nossa Acácia, tenho estado presente sempre e sempre. Estou agindo. Seu filho já consegue fazer alguma cousa. Não é muito não, como não pode deixar de ser. Sou ainda um estudante nas primeiras faixas do ensino. Nem sei dizer como tudo vai sucedendo.
Parece, mamãe, que a vida é como um rio. As águas do tempo nos levam para diante e a gente vai seguindo, fazendo o que pode para não submergir e trabalhar de algum modo na viagem. Será que esta imagem me ocorreu, por lembrar aquele dia? Aquele dia que nós não queremos lembrar? Sei hoje apenas que, se a minha prova, ao partir, foi o desfalecimento na água, nós já derramamos muitas lágrimas para esquecer tudo o que deve ser esquecido...
Graças a Deus, vejo-a firme e valorosa, vivendo e servindo. Não avalia o que foram para mim os primeiros tempos... As suas aflições e as suas angústias. Suas palavras de pergunta e de dor buscando saber a razão do que acontecera me feriam profundamente, porque eu desejava explicar sem conseguir expressar-me.
Se o seu coração querido se colocar em lugar do meu, saberá como doíam aquele pranto e aquelas orações sentidas que recebia de seu carinho, ante o meu retrato e à frente do lugar onde as últimas lembranças ficaram entre nós. Não julgue que eu não ouvia. Chorei com as suas lágrimas, por muito tempo, e quando as suas primeiras esperanças vieram surgindo na alma, aceitando realmente a vida além da morte, a luz nascente em seu amor foi também minha luz. Agradeço hoje por tudo.
Não estou triste ao falar assim, mas é muito importante para mim exprimir agora o que sinto, com a possível demonstração de meus impulsos mais íntimos.
Agradeço o seu esforço para sairmos de nós mesmos ao encontro da fé; agradeço a sua obediência a Deus, procurando resignar-se com o problema que me assaltou quando eu menos esperava; agradeço a fortaleza que o seu carinho nos deu a todos; conquanto, às vezes, fugindo para a solidão do quarto, depois de muitas das nossas reuniões de família, para chorarmos a sós; agradeço o seu apoio valioso a meu pai e, sobretudo, a paz que hoje ilumina o coração de seu filho.
Peço-lhe. Continuemos trabalhando, plantando o bem... Aqui, Mãezinha, o que trazemos, é o que permanece conosco. E estejamos alegres. A vida é segurança e felicidade, trabalho e progresso para nós todos, conforme as leis de Deus. O sofrimento é semelhante à lagarta destruidora que, com invigilância, colocamos na flor da vida. Felizmente, ao ver o seu coração mais tranqüilo, pude asserenar-me e realmente reformar-me para viver.
Cada criança que a sua bondade ampara sou eu mesmo; cada peça de socorro aos necessitados que sai de suas mãos é bênção sobre mim. E aprendamos a esquecer todas as sombras que, porventura, hajam caído entre nós e a Vida - a Vida que é luz de Deus.
O trabalho crescerá para nós. Estou em seus braços, aprendendo a servir e estou em seu pensamento, conversando sobre os melhores caminhos que nos cabem seguir. Compreender, mamãe querida, e auxiliar sempre para o bem.
Seu apoio a meu pai, o nosso companheiro devotado de sempre, é para mim confiança e alegria. Às vezes, pensamos que seria melhor eu ter ficado para colaborar de algum modo nas tarefas que o Senhor nos deu a cumprir; entretanto, sabe Deus o que faz e vim mais cedo, para cooperar na construção de nosso futuro. A vida, mãezinha, é também uma espécie de livro em que lemos, a pouco e pouco, as circunstâncias em que nos encontramos enlaçados.
Somos hoje uma família maior. A princípio, quase quatro fevereiros de retaguarda, supúnhamos ser um grupo único, em nosso bairro feliz de São Paulo. Depois, de semana a semana, fomos descobrindo que somos muitos. Hoje, costumo rir de mim mesmo. Fantasiava escrever uma carta, revelando detalhes de casa e família, mas antes que eu pudesse grafar o que pensava, eis que o Chico veio a nós. Temos tudo em comum. Os conhecimentos do lar e os entes amados. Não consegui transitar nos fenômenos para reconhecer que o maior fenômeno é este profundo amor que nos reúne uns aos outros. Mesmo assim, envio lembranças às meninas e a todos - todos os nossos, desejando que a paz e a bênção de Deus estejam conosco em todos os passos. Aqui estão comigo vários companheiros e benfeitores.
Que ainda estou sendo auxiliado para escrever, não tenha dúvida. Não consigo relacionar os nomes de todos, porque a lista é grande, mas de amigos presentes destaco o amigo Salathiel e o amigo Oswaldo com parentes aqui e que se fazem sentir com muito carinho às nossas irmãs. Não sei ainda ser mensageiro, embora aqui me encontre firme nesta mensagem. Começamos bem neste mês de aniversário e espero, querida mamãe, estarmos sempre mais juntos.

Dos casos em que a sua ternura me recorde nas alegrias de moço, peço as suas orações por todos aqueles laços de afeto que tanto se impressionaram com a minha vinda, quanto ao modo pelo qual fui compelido a vir. No silêncio, nós dois estaremos rogando a Jesus por todos. Tenhamos confiança no futuro e prossigamos.
O trabalho no bem dos outros é o caminho certo.
Agradeço o amparo de nossos amigos de Sacramento.
Seu carinho planta e seu filho vai colhendo. Um dia, com o amparo de Jesus, poderei plantar para a sua felicidade. Até lá, seu filho é seu filho, seu tutelado e seu menino também.
Hoje, como antigamente, sinto-me chegando devagarzinho para um abraço do coração e ouça-me de novo a dizer: "mamãe, eu estou com muita saudade, mas com muita saudade de você..."
Seu sorriso me iluminará, como acreditando e não acreditando no que eu dizia, para acentuar ainda mais o meu desejo de abraçá-la, mas, abraçando a meu pai e a todos os nossos, no carinho que trago ao seu carinho, posso repetir: "mamãe, é mesmo, eu estou com muitas saudades de você, mas o meu coração está com o seu coração para sempre".
Sempre seu,
Augusto.

(Uberaba, 3 de fevereiro de 1973)


DISCIPLINAS NECESSÁRIAS

Augusto Cezar Neto, nascido em São Paulo, Capital, a 27 de setembro de 1942, desencarnou na Praia Grande, a 27 de fevereiro de 1968, na companhia de amigos, exatamente às 12:30 horas. Era químico formado pelo Colégio Eduardo Prado, da Capital Bandeirante, e trabalhava no Laboratório Squibb.
Filho de Raul Cézar e de D. Yolanda Cézar, deixou as irmãs Marly, Maria Otília e Zuleika. Era o segundo filho, "carinhoso, maravilhoso", no dizer de sua genitora.
Era desportista de mérito, tendo a revista "Ipê Clube" dedicado a ele expressiva homenagem, destacando, inclusive, o seu amor à Poesia autêntica.
De sua bela mensagem, recebida pelo médium Xavier, a 3 de fevereiro de 1973, há um trecho para o qual solicitamos a atenção do leitor:
"Aqui não é muito diferente daí, embora aí seja muito diferente daqui. Explicar como é isso não sei ainda. Falo assim para dizer que tenho estado nas disciplinas necessárias. Tratamento intensivo a princípio, refazimento, escola e trabalho depois".
Semelhante passo, efetivamente, confirma com exatidão as palavras de Allan Kardec, quando diz:
"A vida espiritual é, realmente, a verdadeira vida, a vida normal do Espírito. Sua existência terrena é transitória e passageira, uma espécie de morte, se comparada ao esplendor e à atividade da vida espiritual. O corpo é uma vestimenta grosseira, que envolve temporariamente o Espírito, verdadeira cadeia que o prende à gleba terrena, e da qual ele se sente feliz em libertar-se".

***

Algo importante que todos os pais terrestres precisam meditar, esforçando-se pela desvinculação construtiva dos laços afetivos, enquanto na Terra:
"Somos hoje uma família maior. A princípio, quase quatro fevereiros de retaguarda, supúnhamos ser um grupo único, em nosso bairro feliz de São Paulo. Depois, de semana a semana, fomos descobrindo que somos muitos".
Em verdade, no Mundo Espiritual, temos a família maior a nos aguardar, quando ocorre o fenômeno natural da morte, no plano físico.
A tristeza daqui é contrabalançada pela indizível alegria dos que nos esperam no Além.
Com notável propriedade, assevera Augusto Cézar: "O maior fenômeno é este profundo amor que nos reúne uns aos outros", acrescentando: "Mesmo assim, envio lembranças às meninas e a todos - todos os nossos, desejando que a paz e a bênção de Deus estejam conosco em todos os passos" (Editor: Elias Barbosa).


Fonte: 
XAVIER, Francisco Cândido. Entre duas vidas. [Espíritos Diversos]. São Paulo: Calvário, 1974. p. 96-101.

10 comentários:

  1. Temos que fazer o BEM o tempo TODOO!!!

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  2. gostei muito do seu blog, vou ver agora sua apresentação!

    gostaria de pedir que divulgue mais cartas e analises como essa, é realmente muito interessante e educativo para nós espíritas e não-espíritas.

    Abraços!
    Maurício.

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  3. Olá, Maurício!

    Muito obrigada pelo seu feedback. É muito bom saber que a obra epistolar de Chico Xavier continua sendo apreciada e buscada pelo público leitor!

    Ah, sim, vamos continuar publicando materiais interessantes como esse. Continue nos acompanhando, tenho certeza de que gostará dos próximos posts.

    Um grande abraço e até mais,

    Cintia.

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  4. Nossa me emocionei ao ler essa carta...adorei muito seu blog e quero acompanhá-lo parabéns

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    1. Cara amiga, muito obrigada!

      Abraços fraternos,

      Cintia.

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  5. Muito confortante esta carta...Abençoado aprendizado...

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  6. Saudações! Estou seguindo o seu abençoado blog,ficaria muito feliz se você me seguisse também!

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  7. Olá, gostaria de entrar em contato com familiares que tenham recebido cartas psicografadas por Chico Xavier. Você pode me ajudar? Obrigada!

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  8. Cintia!

    Em primeiro quero expressar meus parabéns pela pesquisa que com certeza é de grande valia.
    Em segundo, quero esclarecer que sou admirador de Chico Xavier e suas obras, entretanto não sou espírita. Na verdade não sou adepto de religiões mais este assunto me trouxe uma dúvida que talvez você me esclareça.

    Notei que algumas psicografias foram feitas pouco tempo após à morte física da pessoa, por exemplo Clara Nunes faleceu em 1983 e a carta foi escrita em 1984.
    Já outras, levou um tempo maior, como por exemplo a do Augusto Cesar Neto que teria falecido em 1966 (esta data eu não tenho certeza, li em um site na internet), e a carta foi escrito em 1973, ou seja, espaço de tempo maior, 7 anos.

    Nós sabemos que tanto na denominação espírita, quanto cabalística, como algumas vertentes judaicas e talvez outros grupos que eu não conheça o conceito de reencarnação é enfaticamente acreditado e consequentemente ensinado.

    Para um certo grupo cabalista que conheci por exemplo, o espírito ficaria disponível apenas 11 meses após sua separação do corpo, neste intervalo ele poderia ser consultado por um médium ou por que teria esta habilidade. Após este período ele não estaria mais disponível para consulta, pois já teria se encarnado novamente. E você ha de concordar que teoricamente não ha como consultar ou psicografar carta de um espírito que já tenha se encarnado. Ou teria?

    Em fim, como o espiritismo explica essa relação entre a consulta a um determinado espírito e a reencarnação deste mesmo espírito?

    No conceito dos ensinamentos Espírita, existe algum tempo claramente estabelecido no qual um espírito possa ser consultado? Se existe, está escrito (mesmo que de forma codificada) em alguma literatura bíblica ou espírita?

    Nas cartas que você pesquisou, você observou se a diferença entre a morte e a carta varia muito de individuo para individuo ou se segue mais ou menos um padrão?

    Novamente meus parabéns e agradeço antecipadamente pela resposta.

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    1. Caro Ramon,

      Muito obrigada pelo interesse na pesquisa e pelo comentário!

      Bem, vamos lá: realmente, até o momento, nunca vi nenhuma mensagem psicografada atribuída a um espírito que esteja supostamente encarnado. O que o espiritismo reconhece é a possibilidade, em casos raríssimos, de um espírito encarnado se comunicar mediunicamente (especialmente pela psicofonia). No entanto - e até onde sei - os princípios doutrinários espíritas ou, ainda, a literatura espírita, não citam nem prescrevem qualquer relação fixa entre tempo em que um espírito possa estar apto para se comunicar ou mesmo para ser impedido de se comunicar, como faz o grupo cabalista que vc mencionou. Esse tempo, segundo o espiritismo, pode variar de espírito para espírito, dependendo da condição em que este se encontrar (mais ou menos ligado à matéria, mais ou menos esclarecido/evoluído, etc...).

      O que percebi nas cartas do meu córpus de pesquisa foi que a cada carta os autores espirituais iam adquirindo mais traços de identificação, apresentando mais "referências compartilhadas" (nomes de família, lugares, fatos de conhecimento restrito a um familiar e nunca comentado com o médium, etc), mais clareza e mais consistência em relação aos temas presentes nas cartas e em relação às suas buscas pessoais (paixões, isto é, aquilo que os move, suas preocupações e desejos, etc). Tudo isso nos leva ver que vão tomando consciência sobre as suas situações de desencarnado e, conforme vão se adaptando a essa realidade, passam a ter mais controle sobre o processo da psicografia e também sobre seus estados emocionais (tendem a demonstrar mais calma e mais aceitação). Na dissertação eu comentei que esses sujeitos passam de um estado de confusão mental para um estado de lucidez. Não há realmente uma regra, me parece, para o tempo em que esse processo aconteça. Vemos a mesma transformação acontecer com Augusto César (que teve a sua primeira carta escrita em 03/02/1973, depois de 5 anos de seu falecimento) e em Jair Presente, que teve a sua primeira carta psicografada 41 dias após sua morte. E nada explica por que há essa diferença entre os sujeitos, embora suas descobertas sobre o mundo espiritual e sobre eles mesmos (nesse processo de conscientização) sejam muito semelhantes.

      Bem, espero ter esclarecido ao menos em parte as suas dúvidas.

      Um grande abraço e até mais,

      Cintia.

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